Esqueça as Calorias, Valorize a Energia do Alimento

Mais do que combustível para o corpo, os alimentos carregam – ou não – uma vitalidade ligada à sua história. Assim, escolher aqueles que são fruto de cuidado com a terra, as pessoas e os animais nos proporciona um potente e positivo fluxo energético
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17.08.2020

Ah, a comida… Desde Hipócrates, na Grécia Antiga do século V a.c., já se falava sobre a importância das escolhas do que levamos à mesa. Quem nunca ouviu a frase do pai da medicina: “Que o teu alimento seja o teu remédio e que o teu remédio seja o teu alimento”?

Para quem hoje busca uma alimentação saudável, essa conexão entre saúde e hábitos alimentares soa óbvia. Mas basta entrarmos um pouco na invenção das dietas da moda, por exemplo, para entendermos que ainda patinamos em ideias nada razoáveis, para dizer o mínimo.

O fato é que comida nunca foi apenas comida em boa parte da história da humanidade.  É só lembrarmos como o alimento já foi (e ainda é) usado para ostentar status social. Quanto maior o banquete, maior a realeza. Atual ainda, não? 

Mas também a obsessão pelo “elixir da imortalidade” entrou nesse caldeirão. O que comer para viver até a eternidade ou, pelo menos, para ter uma vida mais longeva? O problema não é o desejo de viver mais e melhor. Mas a listas de alimentos mágicos e milagrosos que fazem a cabeça de muita gente até hoje. E, claro, não podemos deixar de falar da vaidade, do narcisismo que cultua o corpo acima de qualquer bom senso nas escolhas alimentares.

O problema das dietas

Neste ponto, aliás, os exageros são inimigos da saúde. Uma pesquisa recente feita pela Universidade Federal de Pernambuco avaliou mais de 3500 trabalhos científicos sobre dietas de emagrecimento em alta, como a cetogênica (muita gordura, proteína moderada e pouco carboidrato), a low carb (redução de carboidratos) e a detox (desintoxicação com frutas, hortaliças, sucos e chás naturais e baixa ingestão calórica).

O resultado é claro: reduzir drasticamente e por curtos períodos a quantidade de calorias ingeridas pode gerar ou agravar transtornos alimentares como a bulimia e a compulsão alimentar. 

Como se já não bastassem as dificuldades, entra agora no balaio das angústias relacionadas à comida o isolamento social. Para uma parcela da população, a pandemia do coronavírus também trouxe aumento no consumo de alimentos com muito açúcar e carboidrato. Quem nunca tentou suprir carências emocionais com uma dose extra de doce? E nem é preciso dizer que isso tem feito muita gente sofrer com o medo de engordar na quarentena, numa sociedade gordofóbica como a nossa.

Comida e estilo de vida

O que fazer, então, para conquistar uma relação mais saudável com a comida? Onde está o equilíbrio, o olhar mais afetuoso para o alimento e a nossa própria nutrição?

Lá atrás, na origem do termo dieta, encontramos uma referência interessante. Em grego, dieta vem da palavra diaita, cujo significado difere bastante da ideia mais comum, que relaciona o “fazer dieta” a algo pontual e destinado à perda de peso. Etimologicamente, a expressão dieta traz a noção de modo de vida, ou seja, de um comportamento prolongado no tempo.

Em outras palavras, uma dieta implica a repetição de certos padrões de comportamento e escolhas, que não visam outro objetivo senão a boa nutrição e a saúde do organismo. Assim, a dieta também abraça outros aspectos da vida cotidiana: praticar exercícios, horas de descanso e sono, tomar sol, realizar atividades ao ar livre, cultivar relações amorosas, pertencer a uma comunidade etc. 

Dieta, de modo mais abrangente, é estilo de vida. E não a contagem sistemática de calorias, carboidratos, proteínas e outras obsessões que só fazem empobrecer nossa relação com a comida.

Batatas, batatas-doce roxas e laranjas numa assadeira, com uma rama de alecrim, prontas para serem assadas

A potência do alimento

“Ao longo de mais de dez anos atendendo em consultório, percebi que quanto mais os pacientes pensam em calorias, carboidratos, proteínas e toda essa nutrição muito numérica, matemática, mais eles se afastam da nutrição e de toda a potência e vitalidade que o alimento pode nos trazer”, diz Alessandra Luglio, nutricionista, ativista do veganismo e professora do YAM no curso Veganismo: O Mundo é o Que Você Come.  

Nesse sentido, ela cita pessoas que, em busca da menor ingestão possível de calorias, substituem uma maçã, por exemplo, por gelatina diet, totalmente vazia de nutrientes e cheia de aromatizantes, conservantes, açúcar e outros aditivos, sem falar da presença de colágeno (de origem animal).

“Mais do que ficar pensando em calorias, precisamos falar em densidade nutritiva. Um alimento pode ter a mesma quantidade de calorias do que outro, mas ter também menos nutrientes. O ponto central é mais sobre a qualidade, e isso inclui a carga de macro e micronutrientes que cada alimento oferece para fazer nosso corpo funcionar bem, do que sobre a quantidade de alimentos que ingerimos, pensando sempre que o princípio fundamental do alimento é nutrir”, afirma.

Comida como energia nutricional e vital

Além da questão da qualidade nutritiva dos alimentos, Alessandra Luglio levanta outro ponto que considera fundamental: a energia vital ou as vibrações contidas em cada alimento. “Isso tem muito a ver com o modo de produção dele. Quando nos alimentamos de algo que foi cultivado em um ambiente sadio, de forma orgânica, sem agrotóxicos, em um sistema agroflorestal e sintrópico (em que há um fluxo energético positivo), recebemos dele uma energia bastante intensa, potente, positiva”, diz.

Por outro lado, ela complementa que quando ingerimos alimentos provenientes de monoculturas, pulverizados com pesticidas e metais pesados que roubam essa energia, a comida passa a ter um fluxo de energia entrópica, em que há uma perda energética e até vibracional daquele alimento.

“É só pensarmos na energia do alimento de origem animal, que carrega dentro dele toda a violência que o bicho sofreu do início ao fim da sua vida. Toda uma história sem liberdade, sem poder expressar instintos naturais, amedrontados, abatidos com muito estresse. Todo esse sofrimento fica no alimento”.

É por isso que a nutricionista defende que comida limpa (nesse sentido de pureza vibracional) é um gesto reflexológico daquilo que queremos para o planeta. Uma publicação feita por ela em redes sociais resume bem essa filosofia:

“Quando você se liberta das calorias, dos carboidratos, proteínas e da psicose do nutricionismo e passa a comer e “classificar” o que come pelo prazer intuitivo de cuidar de si ingerindo qualidade nutritiva e comida que tem história de amor, cuidado, resiliência e proteção, você flui. Flui para a energia e conexão que nutre seu corpo. Nutre seus propósitos e constrói o mundo que você anseia viver seguindo e proporcionando um fluxo energético positivo e poderoso.” 

Batatas, batatas-doce roxas e laranjas assadas, com ramas de alecrim, sal e azeite

Trasformando hábitos: Por onde começar

A primeira dica que Alessandra dá é buscar mais informação. “Ela é a ferramenta mais libertadora que existe no planeta”. Depois, é preciso questionar: o que vou comer para ter mais vitalidade? Do que meu corpo precisa agora? Eu me conheço o suficiente para saber o que me faz bem? 

E mais: dê sempre preferência aos alimentos vegetais. Busque entender a crueldade que há por trás do consumo de carnes e, então, você terá mais disposição para fazer a migração para uma dieta livre de produtos de origem animal.

Pense em melhorar dentro de casa. Para isso, vá mais em feiras livres, de produtores locais, orgânicos, em que seja possível olhar nos olhos de quem produz seu alimento. Deixe o supermercado para os itens de praticidade que ajudam a complementar a alimentação (como os leites vegetais, por exemplo).

Não queira mudar radicalmente. Busque uma evolução gradativa, em que você se coloque no caminho e flua de modo confortável, mais natural, passo a passo.

Aproveite o momento da quarentena para voltar à cozinha. Ninguém precisa ser chef para preparar as refeições da família. Conquiste prazer ao cozinhar e manejar cheiros, sabores, histórias de afeto e de respeito pelo planeta. E deixe a potência do alimento nutrir seu organismo, seus propósitos, seu (nosso) mundo.

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