Uma Horta para Chamar de Sua

Em nossa casa ou apartamento, qualquer folha verde ou tomatinho despontando em vaso é como uma janela – cheia de vida – para o mundo lá fora. Saiba como começar a colher seus frutos
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25.05.2020


A mágica de perceber que uma planta retribui com flor, fruto, raiz ou folha um gesto seu de cuidado é algo cativante demais para se menosprezar. Ainda mais quando, confinados em casa, queremos dar prosseguimento àquela ideia que há muito vinha sendo protelada: ter uma horta em casa. 

Inspirados pelo tempo em que vivemos, pedimos ajuda à jardineira Carol Costa e ao engenheiro agrônomo Osmar Mosca para nos conduzir nesta viagem entre as sementes e os frutos de colocar a mão na terra.

Você é capaz de fazer a vida brotar numa horta em casa

Em primeiro lugar, é bom não subestimar o projeto. “Muita gente me diz que está fazendo uma hortinha. No diminutivo. Cara, horta em casa não é a coisa mais fácil de se fazer. Entre germinar, crescer, produzir, morrer há um ciclo muito veloz. E é necessário pensar bem no que você vai cultivar porque cada hortaliça gosta de uma coisa”, brinca Carol, criadora do site Minhas Plantas e apresentadora do programa Loucas por Plantas, no GNT, além de autora de quatro livros sobre plantas, jardinagem e hortas. 

Ela sabe bem do que está falando, até pelos erros que já cometeu. “As plantas entraram na minha casa um pouco para compensar a falta da minha mãe. Saí do interior para fazer faculdade em São Paulo. E, como qualquer estudante, estava exclusivamente preocupada com minhas notas, os trabalhos para entregar e em encontrar um emprego. Mas, quando ia visitar minha mãe em Araraquara, ela sempre colocava plantas na minha mala. Eu achava aquilo ruim porque além de tudo que tinha para fazer, tinha que cuidar para não deixar a planta morrer e minha mãe ficar chateada. O mais engraçado é que chegou um ponto em que a planta não só não morria como começava a dar certo. Dava flor”, lembra ela.

“O que eu quero dizer é que tem um lado muito libertador no cultivo das plantas que, no fundo, acho que tem seduzido as pessoas nesse momento em que tudo é tão incerto: você é capaz de fazer as coisas brotarem”, diz a profissional. 

E acrescenta:  “Como boa jornalista, que também sou, não acredito em dedo verde. Acredito em informação”. Vamos a elas, então!

vasinhos com ervas e verduras

O primeiro passo: diagnóstico da sua casa

A primeira providência, segundo a jardineira Carol Costa, é mapear na sua casa ou apartamento o local que pode oferecer melhores condições para as hortaliças. Isto é: o local que bate mais Sol. 

Se você tem quintal, terá maravilhosas 8 horas de Sol pleno batendo nas folhas das plantas. Quem mora em apartamento precisa lembrar que não tem essa quantidade toda (a menos que more em uma cobertura…). Neste caso, a hortaliça precisa receber, no mínimo 4 horas de Sol em suas folhas para completar seu ciclo.  

A segunda tarefa é checar se há vento e, em caso positivo, minimizá-lo. “Pode ser colocando perto um vaso maior, ou sombrite, uma treliça com uma trepadeira”, diz a profissional.

Quanto à terra ideal, o engenheiro agrônomo Osmar Mosca, que trabalha na Coordenadoria do Desenvolvimento Rural Sustentável, em Campinas, sugere uma receita com 50% de terra vegetal e 50% de húmus de minhoca. “Pode comprar as duas nas lojas agrárias. Misture muito bem e cultive sua horta no apartamento, em vasos, ou no quintal. Esse é o maior investimento. Além de carinho e atenção”, diz o educador do campo.

Segundo passo: na horta em casa, quem combina com quem

É sempre bom reunir quem gosta das mesmas coisas. “Manjericão, alecrim e hortelã são o clássico da discórdia”, antecipa Carol. “Ou o manjericão vai morrer de sede ou o alecrim vai morrer afogado. E a hortelã vai tomar conta de tudo porque possui raízes invasoras”, avisa.  

Para simplificar, ela dá duas dicas: plantas de folhas finas num lugar, plantas de folhas largas noutro. E pronto. Porque as primeiras precisam de pouca água e as segundas gostam de água em abundância. Sendo assim, a fininha alecrim se dá bem com o orégano, a salsinha, o tomilho, a ceboleta. Já a alface, o almeirão, a acelga, a couve e o manjericão compõem o outro time. 

As mudas podem ser de pacotinho (só atente à validade, pois sementes também podem estar vencidas). Há muitas variedades já com a indicação de época para plantio e região do país que evoluem melhor. A lavanda nunca vai se dar bem no calor do Rio de Janeiro, por exemplo. E plantar raízes em época de chuvas também não é uma boa ideia para nenhum quintal porque o solo fica encharcado demais e atrai pragas para as raízes.

Mudas crescendo em horta de quintal

Terceiro: escolha pelo seu prazer em plantar

“Compreendidos os arranjos possíveis, as plantas amigas e inimigas, escolha o que você mais gosta de comer para que, além de todo o prazer de cultivar, agrade o seu paladar”, entusiasma Osmar.

Ele é criativo nas propostas. “Você pode comprar uma jardineira de 15 centímetros por 30 centímetros para os temperos – três mudas de cheiro-verde, por exemplo. Pode ter um vaso de maior profundidade (30 centímetros) só para tomate porque a raiz dele é mais profunda. Quem tem um espaço maior pode, ainda, plantar pepino. Basta colocar um bambuzinho de cerca de um metro para tutorar o crescimento e ajudar a segurar o caule. Em 50 dias, está produzindo”, diz.

Para quem gosta de rúcula, ela tem uma produção bem rápida e pode-se cortar apenas as folhas externas para cada vez que for usar na salada. Afinal, para que retirar o pé inteiro se pode ir colhendo aos poucos, não é? 


Inclua na horta as plantas não convencionais

“Recomendo também plantar capuchinha, que é uma panc (planta alimentícia não convencional). Dela se come a folha, a flor, o caule. Em um vaso de 30 centímetros de profundidade e 20 cm de diâmetro cabem duas mudas”, ensina.

“A bertalha é outra panc que vale a pena. E fica linda em um vaso suspenso porque ela vai formando um ramo bem bonito. Você pode cortar seus raminhos e cozinhar como espinafre, incluir num mexido, numa torta ou cuscuz”.

E não se esqueça de acrescentar uma erva medicinal. Uma mudinha de capim-limão para chá vai bem em um vaso com terra bem fofa e úmida disposto no lugar mais iluminado possível. 

Simplificando o cuidado na horta em casa

O processo de rega e adubação, na visão de Osmar, pode ser o mesmo para todas. “Em vez de ter uma regra específica para cada planta, coloque as costas da mão na terra. Se estiver úmida, não precisa molhar. As hortaliças não toleram solo encharcado e isso pode apodrecer a raiz. Se estiver seca, dê água. A planta tem sede.” 

Quando o lugar tem muito Sol e vento, o solo pode desidratar. Aí, vai ser necessário molhar dia sim, dia não. Para diminuir o ressecamento, uma dica boa é colocar um pouco de palha sobre a terra. 

Para adubar, Carol tem uma receita simples, caseira. “Em casa, eu e o meu marido batemos todos os restos vegetais – de casca de legumes, folha, casca de ovos, borra de café no liquidificador (com um mínimo de água, só para ajudar a bater) e jogamos sobre a terra. Só é necessário um cuidado: descobrir um pouco o solo para jogar a mistura, regar muito bem e depois voltar a cobrir a terra com a palha de pinus”, conta. Uma vez por semana é suficiente.

“O maior erro é abandonar a planta. Se você estiver sempre ali, mexendo com ela, mudando de lugar quando vê que ela não desenvolveu bem. Dando água quando ela está com sede e afofando o solo com um pedacinho de bambu, ela vai ficar generosa. É um carinho que você faz e que evita a compactação na superfície. Aí, quando for molhar de novo, a água será melhor absorvida e a planta vai gostar”, ensina Osmar. Carinho e atenção parecem  mesmo fazer a vida prosperar.

Plante e colha na hora certa

Por último, mas não menos importante para sua horta em casa dar certo: é preciso colher no tempo certo. “Se você adia a colheita, a planta segue com a vida e começa a produzir o pendão de flor. Toda a energia que estava na raiz da beterraba, todo o perfume do manjericão, vai para a produção de flor. Da flor para a semente. E aí a planta finaliza seu ciclo e morre”, destaca Carol.

Uma dica: use tesoura para colher o menor cabinho ou folha que seja. Nunca faça isso com a mão porque a raiz das hortaliças não é profunda e pode sair da terra. A planta sofre com um gesto brusco. E fica feliz quando são retiradas folhas secas, amareladas ou doentes. 

Não deu certo? A hortinha morreu? Como o ciclo das hortaliças é curto, aprenda com o erro e comece de novo. ▲