Por Trás do Consumo de Peixes

A pesca e a piscicultura impactam a biodiversidade e, apesar da fama de proteína saudável, a poluição das águas por microplásticos, agrotóxicos e até mercúrio compromete a qualidade dos pescados e a saúde das pessoas
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18.05.2020

Entre as proteínas animais, os peixes sempre levaram a fama de serem a opção mais saudável, pela baixa quantidade de gordura saturada e por serem fonte de ômega-3, ácidos graxos reconhecidos por ajudar a proteger a saúde cardiovascular e cerebral. A boa reputação, no entanto, não contempla os impactos ambientais gerados pela cadeia produtiva. E sem esquecer os riscos à saúde humana relacionados ao consumo de pescados oriundos de águas contaminadas. E há ainda os maus tratos aos animais, que sofrem estresse e até surdez nos sistemas de confinamento adotados na piscicultura.

Em todo o mundo, o consumo médio de pescados ultrapassa 20 quilos anuais por habitante. No Brasil, essa média cai pela metade, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), embora o consumo varie bastante entre regiões. No Rio Grande do Sul, por exemplo, são apenas 4 quilos por pessoa ao ano, enquanto que no Amazonas, a média chega a 50 quilos per capita. Fruto da riqueza de rios e da cultura local.

Para entender um pouco mais essa atividade econômica e seus impactos ao meio ambiente e à saúde humana, vale a pena dividir os pescados em dois grandes grupos, relacionados à origem dos peixes: pesca e piscicultura. O primeiro abrange as diversas técnicas utilizadas para retirar espécies nativas das águas, especialmente de mares e oceanos. Já o segundo, engloba o cultivo de peixes confinados em viveiros, barragens e tanques-rede, que acontecem em águas doces e também em regiões litorâneas.

Sobrepesca, bycatch e pesca fantasma

De acordo com a FAO, mais de 87% de todo o volume pescado anualmente – cerca de 91 milhões de toneladas – vem dos oceanos. Países como China, Indonésia, EUA, Rússia e Peru lideram o ranking da indústria pesqueira. Menos de dez espécies correspondem à maioria dos peixes retirados do mar. São elas: polaca do Alasca, bonito-listrado, anchoveta, sardinhas, cavala e arenque.

A área explorada na pesca mundial já atinge 55% dos oceanos, quase quatro vezes a área empregada na agricultura em terra. E a demanda aumenta ano após ano. Com isso e mais o baixo monitoramento das atividades pesqueiras, a FAO calcula que 33% das populações de peixes estão sendo exploradas além de sua capacidade natural de reprodução nas águas (ou seja, sobrepesca). Outros 60% encontram-se no limite da exploração. Assim, cientistas estimam que, se nada for feito, os estoques de pescado marinho podem entrar em colapso nas próximas décadas. 

Além do problema da sobrepesca, que também afeta diretamente as comunidades tradicionais que vivem da pesca artesanal, há outra questão. A pesca indesejada ou bycatch, que é a captura incidental de espécies não visadas pelo pescador. Em outras palavras, são as tartarugas, tubarões, golfinhos, entre outros, que acabam mortos em redes de pesca.

Equipamentos que são desastre para a vida marinha

Outro grande problema são os equipamentos de pesca abandonados ou descartados no mar, que são um desastre para a vida marinha. Todos os anos, 640 mil toneladas desses materiais (redes, cabos, boias, anzóis) prejudicam ecossistemas, mutilam e matam animais, incluindo aves e peixes ameaçados de extinção. É a chamada pesca fantasma.

No Brasil, a ONG World Animal Protection estima que sejam produzidos cerca de 580 quilos de apetrechos fantasmas por dia em praticamente todo o litoral do país, que podem impactar até 69 mil animais marinhos todos os dias.

Também por aqui, um estudo recente feito pelo WWF analisou 38 das espécies de pescado mais consumidas no Brasil. O resultado mostrou que 58% delas estão classificadas como sobrepesca e, por isso, devem ser evitadas pelo consumidor. É o caso do cação (tubarão-azul), do atum, do camarão-rosa e da sardinha-verdadeira, entre tantos outros. 

Além disso, apenas 28% das espécies avaliadas possuem alternativas com certificação de sustentabilidade. Outro dado: das oito espécies recomendadas para consumo, nenhuma conta com produção nacional. Isso revela que a gestão pesqueira no país está longe de ser sustentável.

Peixes cultivados

Com os estoques selvagens em risco, a aquicultura vem crescendo em todo o mundo e, segundo a FAO, deve representar 54% dos pescados em 2030. Aqui no Brasil, o setor de peixes cultivados cresceu 4,9% em 2019, o maior índice entre todas as proteínas animais. A produção chegou a 758 mil toneladas, com a tilápia na liderança entre as espécies (57% do total). Isso coloca o Brasil em quarto lugar no ranking de maiores exportadores desse tipo de peixe. 

“O setor tem potencial para crescer dois dígitos ao ano, mas é o segmento de proteína animal mais regulado do país”, diz Francisco Medeiros, presidente executivo da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). Em sua avaliação, “os passos para obter o licenciamento ambiental na piscicultura são mais árduos do que para vender dinamite, embora o setor responda por cerca de um milhão de empregos diretos e indiretos”. 

Impactos da piscicultura

Basicamente, o cultivo ocorre em viveiros escavados ou suspensos (na terra, em estruturas de lona ou concreto) e também em tanques-rede colocados em rios, reservatórios ou no mar. “De modo geral, o maior risco ambiental é o de poluição da água por resíduos de ração animal, rica em fósforo”, explica a pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente, Fernanda Sampaio. Em excesso, a substância favorece a proliferação de algas, que impedem a passagem de luz e reduzem a quantidade de oxigênio na água. E isso leva à mortandade de peixes e outras espécies. Essa eutrofização compromete, ainda, a qualidade da água também para uso recreativo, turismo, irrigação e consumo humano.

A pesquisadora conta que a atividade em tanques-rede é recente no Brasil e que os parâmetros de monitoramento ambiental exigidos pelos órgãos de controle ambiental não funcionam na prática. 

“Enviar amostras de água para análise duas vezes ao ano sai caro para o produtor e não traz benefício ambiental, porque as alterações na água ocorrem muito rapidamente”, diz. Ou seja, em alguns casos, cumprir a lei pode não ser sinônimo de baixo impacto ao meio ambiente. Segundo ela, o bom é que os produtores são os mais interessados em manter a qualidade da água. “Ela é fundamental para a própria atividade e a vida dos peixes nos tanques”, completa.

Infográfico com os impactos da Carne de Peixe na Saúde
Infográfico com os impactos da Carne de Peixe Aqui e no Mundo

Risco de desequilíbrio ambiental

Ainda assim, a atividade requer, na avaliação da pesquisadora, uma legislação mais efetiva, para que os impactos possam realmente ser medidos e controlados. Se, por um lado, a piscicultura pode ajudar a reduzir a pressão sobre os estoques selvagens de pescado, já existem inúmeros registros de efeitos negativos de alguns métodos de cultivo em certos habitats. É o caso das fazendas de camarões em áreas de manguezais, que acabam afetando todo o ecossistema.

“Dependendo do local implantado e da espécie, que pode ser exótica ou se reproduzir com muita facilidade em caso de saída do tanque, isso pode causar um enorme desequilíbrio para o meio ambiente, uma vez que em muitos casos essas espécies acabam sendo muito dominantes, como é o caso da panga, por exemplo”, afirma Anna Carolina Lobo, gerente dos Programas Mata Atlântica e Marinho da ONG WWF Brasil.

Proteína “saudável” e prato contaminado

Se a motivação para consumir peixes é a ideia de proteína animal saudável, vale a pena refletir sobre alguns dados. Uma pesquisa feita pela Universidade de Washington analisou mais de 56 mil peixes marinhos e concluiu que eles carregam 283 vezes mais parasitas do que em 1980 – entre outras razões, devido ao aquecimento dos oceanos. Em humanos, peixes contaminados consumidos crus, defumados ou congelados de forma incorreta, podem provocar náuseas, vômitos e diarreia. 

No Brasil, na região Amazônica, grande consumidora de peixes, dezenas de estudos feitos pelo WWF desde os anos 1980 apontam a contaminação de peixes por mercúrio despejado pelos garimpos. Na maioria dos casos, os níveis ficam bem acima dos preconizados pela Organização Mundial de Saúde. “Esse mercúrio é biomagnificado na cadeia e tem efeito cumulativo após consumido por humanos, causando diversos problemas de saúde”, relata Marcelo Oliveira, especialista em conservação do WWF Brasil. 

Agrotóxicos chegando nas águas

Além disso, o uso de agrotóxicos em grandes lavouras têm chegado aos cursos d’água, sendo também uma fonte de contaminação importante. “Todavia, as análises saem ainda caras e poucos estudos não são suficientes para demonstrar a magnitude do problema nas bacias amazônicas. E há ainda um terceiro contaminante, mas ainda pouquíssimo conhecido para os rios na Amazônia, que são os microplásticos”, diz. 

Apenas nos últimos anos, desastres ambientais como o de Mariana, Brumadinho e o derramamento de óleo na costa brasileira afetaram enormemente a qualidade da água de rios, afluentes e de todo o litoral, e pouco se sabe a respeito dos impactos nos peixes. “São impactos sobre toda a vida marinha e substâncias que demoram muitos anos para desaparecerem. Algumas praias do Nordeste vão levar 20 anos para recuperar a balneabilidade que tinham antes do impacto. Até o mês de abril, o monitoramento ainda estava encontrando óleo em mais de 100 praias da região”, ressalta Anna Carolina Lobo.

A lista de problemas tem ainda o salmão de cativeiro (não produzido no Brasil), que tem a carne colorida artificialmente por corante presente na ração – aliás, à base de soja e milho, que são grandes monoculturas relacionadas à destruição de florestas. A questão é polêmica, mas alguns nutricionistas afirmam que o tal corante pode ser cancerígeno. Na dúvida, parece razoável repensar ou dispensar este e outros peixinhos do prato, não?