Tecnologia para Reduzir o Consumo de Carne

Carnes vegetais, queijos veganos e até ovos sem origem animal já são realidade para uma alimentação mais amigável com o planeta, os animais e, inclusive, para a saúde humana
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Sabemos que o mundo precisa consumir menos carne e que isso é urgente. Alimentar 7,7 bilhões de pessoas já é um desafio enorme hoje. Em 2019, segundo a ONU, a insegurança alimentar afetou mais de 820 milhões de seres humanos. Daqui a 30 anos, seremos 10 bilhões de indivíduos. Alimentar a todos exigirá mudanças profundas no sistema de produção, na gestão dos impactos ambientais e também nos hábitos alimentares de muita gente.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 46% de todos os grãos cultivados no planeta são destinados à alimentação animal. É quase metade de tudo que se planta no globo terrestre. Entre a soja, o número chega a 79% (dados do WWF). 

Antes de ponderar que essas monoculturas, no fim das contas, viram carne na mesa do consumidor, é preciso lembrar de outros problemas. Além dos enormes prejuízos ambientais causados pelo avanço das fronteiras agropecuárias sobre áreas de florestas e da alta emissão de gases de efeito estufa gerada pelos rebanhos, há ainda os problemas relacionados aos impactos da carne na saúde humana (tema de inúmeras pesquisas científicas). E toda a gama de sofrimento animal envolvido nessa indústria, que tem levado muita gente a querer deixar de ser cúmplice dessa história.

Uma carne feita com planta

Para acelerar esse processo de conscientização, a tecnologia tem ganhado um espaço de destaque na indústria alimentícia. Novas foodtechs surgem com a proposta de desenvolver produtos que mimetizam o sabor, a textura, a cor e o cheiro da carne. Mas são feitos a partir de vegetais – e, sim, prometem conquistar a aceitação dos onívoros.

“Como não daria tempo de mexer nos hábitos de muitas pessoas, porque comida não é só questão de nutrição, ela carrega nossas tradições, nossas memórias afetivas e conecta a gente com outras pessoas, esse novo mercado está olhando para o público onívoro, para entregar produtos que permitam a ele manter seus hábitos culturais e, ao mesmo tempo, reduzir o consumo de carne”, explica Gustavo Guadagnini, diretor geral do The Good Food Institute. A entidade promove e apoia duas frentes tecnológicas: produtos plant-based, como os hambúrgueres vegetais, desenvolvidos por biomimetização, e carne cultivada (ou carne de origem celular), criada a partir de células de animais que não precisam ser abatidos.

“Slicing Chicken”, carne de frango da americana Memphis Meats, produtora de carne cultivada em laboratório / Foto: Memphis Meats (divulgação)

O mundo se anima com a carne vegetal

As projeções para esse novo setor de carnes à base de plantas são bastante animadoras. Até 2035, a JP Morgan estima um mercado global de US$ 100 bilhões, representando 7% do mercado de carnes. Já a consultoria global AT Kearney é ainda mais otimista. Ela calcula em até US$ 370 bilhões o tamanho do mercado ‘meatless’ em 15 anos, abocanhando 23% das vendas de “carne” em todo o mundo.

Nos EUA, empresas como a Impossible Foods e a Beyond Meat lançaram suas versões plant-based para agradar o paladar dos americanos. Por isso, os hambúrgueres são o carro-chefe, mas também há salsichas, linguiças, bifes e carne moída para almôndegas e receitas diversas.

Por aqui, a startup Fazenda Futuro, do Rio de Janeiro, abriu estrada com o Futuro Burger, que já é vendido em supermercados pelo país. O produto leva como base grãos não transgênicos de soja, grão-de-bico e ervilha, além de beterraba. Há ainda almôndegas vegetais com gosto de carne e a recém-lançada linguiça vegana “de pernil”, com uma película de alga que imita a versão convencional.

Mão segurando sanduíche de hamburguer vegetal: Burguer do Futuro, da LC Futuro, produto da parceria entre a Fazenda Futuro e a Lanchonete da Cidade / Foto: LC Futuro (divulgação)
Burguer do Futuro, da LC Futuro: produto da parceria entre a Fazenda Futuro e a Lanchonete da Cidade / Foto: LC Futuro (divulgação)

Corporações pecuaristas de olho na carne vegetal

Grandes corporações do setor pecuário também estão de olho nesse mercado, não como substituto do convencional, mas como uma maneira de diversificar os negócios e atender a demanda de consumidores que estão começando a rejeitar as carnes. Prova disso é a participação de importantes grupos como a JBS (controladora das Swift, Friboi, Maturatta, Seara e outras), a Marfrig e a BRF (fusão entre Sadia e Perdigão), que já têm suas versões de carne vegetal no varejo nacional e estão investindo na diversificação de produtos, com o interesse, é claro, de não perder mercado. 

É questão de tempo até conseguirmos popularizar

Por enquanto, a expansão dos negócios no Brasil esbarra no preço dos produtos, considerado alto na comparação com os similares de carne animal. “É preciso ganhar escala para poder ficar mais acessível e também investir em tecnologia, inclusive para aproveitar partes de plantas desperdiçadas em algumas produções regionais, como é o caso da proteína da folha de mandioca e da fibra de caju, por exemplo. É questão de tempo até conseguirmos popularizar”, diz Guadagnini.

Prato com o produto "Duck" , da Memphis Meats, produtora de carne cultivada em laboratório / Foto: Memphis Meats (divulgação)
“Duck” , produto da americana Memphis Meats, produtora de carne cultivada em laboratório / Foto: Memphis Meats (divulgação)

Carne vegetal: mais saudável e sem crueldade

Para a nutricionista Alessandra Luglio, professora do curso Veganismo: O Mundo É o Que Você Come e consultora da Fazenda Futuro, a diferença no preço reflete a pouca semelhança na qualidade dos produtos. 

“Em geral, os hambúrgueres e outros processados de carne são feitos com o refugo da indústria e, por isso, têm um custo menor na produção. Além disso, são uma cadeia produtiva já muito consolidada e que não contabiliza os prejuízos ambientais que ela gera. Se isso acontecesse, seria o produto mais caro do mundo”, avalia Alessandra. 

A carne vegetal, ao contrário, está conquistando espaço dentro de um mercado bastante competitivo. “Fora que são produtos desenvolvidos para ter a mesma qualidade nutricional em termos de proteína, só que com menos gorduras saturadas e com mais fibras”, conta.

Embora sejam produtos processados – alguns até ultraprocessados, com aditivos sintéticos – as carnes vegetais oferecem vantagens nutricionais. “Mais de 80% dos alimentos consumidos pelos brasileiros são processados. O que estamos oferecendo são opções melhores e com uma preocupação real de ser mais saudável e de oferecer menos impactos ao meio ambiente”, defende Luglio.

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Meat Microscope
Color Lab_Beets
E-Mouth
Raw Beyond Burger Patties on Conveyor Belt 2
Sensory Panel
O processo de produção das carnes de laboratório da Beyond Meat, que tem várias etapas, como: desenvolvimento do aroma, análise do produto em microscópio, elaboração de corantes naturais, testes de densidade e degustação / Fotos: Beyond Meet (divulgação)

Um caminho para reduzir e eliminar a carne animal

Na visão da nutricionista, quem hoje já é vegano ou vegetariano e prioriza uma alimentação à base de grãos íntegros, não terá tanto a ganhar com essas versões high tech de carne vegetal, embora possa também consumi-las como uma opção a mais no cardápio.

“Agora, uma pessoa que consome carne, embutidos, hambúrgueres etc. pode se beneficiar muito ao ver nos produtos plant-based uma opção de reduzir a carne. E, com isso, a taxa de colesterol e de gorduras, por exemplo, ou a tristeza de ver animais sendo abatidos para sua alimentação. Mas sem perder o prazer de uma refeição com sabor de carne, ou sem deixar de curtir a lasanha da nona que é tão tradicional e afetivamente importante para a família”, afirma.

E que tal queijos e até ovos vegetais?

Além das carnes vegetais, novas biotecnologias no setor de alimentos estão inovando e aprimorando as opções de produtos desenvolvidos para substituir as versões de origem animal. 

É o caso do N.ovo, lançado pela Ovos Mantiqueira, feito a partir da proteína e da ervilha, além de linhaça, para substituir ovos no preparo de bolos, tortas e até bolinho de chuva. 

“É uma alternativa interessante para reduzir o consumo de alimentos de base animal e atender as pessoas que têm alergia a ovo. Mas também é bacana porque o ovo faz parte das receitas mais gostosas da vida humana, e que agora podem continuar no cardápio em versão melhor para o planeta e mais saudável para todos nós”, comemora Alessandra Luglio.

Outro universo em expansão é o dos queijos e outros laticínios plant-based. “A tecnologia melhorou muito nos últimos dois anos e hoje os produtos já estão alcançando quase a mesma experiência que o consumidor está acostumado a ter ao fatiar ou derreter um queijo, por exemplo, e com muito sabor. É comida gostosa de verdade”, comemora o empresário Fabio Zukerman, CEO da Cooltivar, hub de negócios da indústria plant based.

Kesu - queijo tipo brie vegetal servido com geleia de framboesa
Kesu - queijo tipo brie vegetal servido com geleia de maracujá
Queijo vegetal tipo Brie, da Kesú / Foto: Instagram @kesu.oficial

Saborosos e também sustentáveis

“Mais do que isso, estamos muito perto de oferecer essa experiência com produtos que têm mais qualidade do ponto de vista nutricional, pois são gorduras boas para o organismo, e que também são muito mais sustentáveis”, afirmam Cintia Lombardi e Marcelo Ribeiro, nutricionistas e fundadores da BasiCo Plant Food, produtora de requeijão, cream cheese, cajupiry, muçarela e manteiga à base de castanhas de caju e macadâmia.

E dá para aguardar mais coisas boas (e saborosas) por aí. “Temos ainda todo o leque de produtos de conveniência para explorar, como as pizzas congeladas, por exemplo. É um mercado que ainda vai crescer muito, com certeza”, pontua Zukerman.

Para experimentar – e saborear

Selecionamos algumas marcas que produzem carnes, laticínios e até ovos plant-based para inspirar você em novas escolhas

LC Futuro
Hamburguer vegetal, 100% vegan
@lcfuturo

Plant Burguer Brasil
Hamburgueria à base de plantas
@plantburguerbr

Fazenda Futuro
Hamburguer, carne moída, linguiça… tudo à base de vegetais
@fazendafuturo

The New Butchers
Hambúrguer, franjo e carne 100% à base de vegetais
@thenewbutchers

Basi.co
muçarela, requeijão e diversos queijos à base de castanhas
@basicoplantfood

Kesú
Queijo a base de castanha de cajú
@kesu.oficial

Viveg Culturas Veganas
Queijos plant based e laticínios vegan
@viveg_culturas_veganas

NoMoo
Laticínios vegetais e à base de castanha de cajú
@nomoo

N.ovo
Ovos à base de vegetais para servir em diversas receitas
@n.ovoplantbased