Por trás do Consumo de Porcos

Bacon, lombo, pernil e embutidos como presunto, linguiça e mortadela carregam histórias de crueldade com os animais e prejuízos à saúde e ao meio ambiente
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08.05.2020

Já abordamos aqui os impactos ambientais e também à saúde da população causados pelo consumo de carne bovina e de frango. Sem dúvida, são cadeias produtivas com grande influência política no país e que deixam rastros negativos na natureza, aumentam o risco de pandemias, preocupam pela aplicação excessiva de antibióticos usados também em humanos e estão relacionadas a doenças como câncer de intestino, obesidade e diabetes. Isso tudo sem esquecer de mencionar as práticas cruéis a que são submetidos os animais nestas indústrias. Com a carne suína, o cenário não é muito diferente.

Os porcos estão no topo dos mamíferos mais consumidos na alimentação humana. Em todo o mundo, são abatidos cerca de 23 milhões de porcos por semana, de acordo com a ONG Animal Ethics, do Reino Unido. O Brasil é o quarto maior exportador de carne suína, com 750 mil toneladas enviadas ao exterior em 2019, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal. 

Esse volume representou uma alta de mais de 16%, provocada especialmente pelos surtos de peste suína na China e em outros países da Ásia, que precisaram exterminar rebanhos contaminados e, com isso, importar carne suína. Muita carne.

Saúde em risco com bacon e embutidos

Mesmo com o crescimento das exportações, o grande destino da suinocultura brasileira, que produz perto de 4 milhões de toneladas de carne, continua sendo o mercado interno. Em 2018, por exemplo, 84% da produção não atravessou as fronteiras do país. Aí, você pode se perguntar: mas o brasileiro consome tanta carne de porco assim? 

Em média, o consumo per capita em 2018 foi de 15,9 quilos por habitante. É bem menor do que o consumo de frango, que chegou a quase 42 quilos por brasileiro no mesmo período. Porém, é preciso considerar que os números não retratam apenas os cortes de carne suína in natura, como bisteca, pernil, lombo ou costela. No prato do brasileiro, a carne de porco está também nos embutidos da feijoada, no tempero do arroz com feijão, no torresmo e no famoso sanduíche de presunto e queijo.

Em relação aos cortes menos processados, a conta do consumo de embutidos e de bacon (gordura subcutânea) pesa mais – e pior – para a saúde da população. A própria Organização Mundial de Saúde classifica esses alimentos como cancerígenos. E pesquisas científicas apontam que consumir embutidos e bacon, mesmo em pequenas quantidades, aumenta o risco de câncer no intestino. Segundo a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, o consumo diário de cada porção de 50 gramas desse tipo de carne eleva o risco em 18%.

Danos do consumo de carne suína ao meio ambiente

Além dos prejuízos à saúde, consumir carne suína significa apoiar uma indústria que coleciona danos ao meio ambiente. Assim como ocorre com bovinos e frangos, a criação de suínos está ligada à produção agrícola de grãos de soja e milho, usados na ração dos animais. 

Por isso, o setor também tem relação direta com a substituição de florestas nativas por monoculturas de soja (transgênica, em grande parte, ou seja, com alto uso de agrotóxicos nas lavouras, que empobrecem o solo).

Outro ponto importante e de alto impacto ambiental é o grande volume de resíduos gerados pela suinocultura. Os dejetos das granjas (urina, fezes, restos de ração e água usada no manejo dos animais) têm forte potencial de poluição de rios e lençóis freáticos. 

Em excesso, esses resíduos ricos em nitrogênio e fósforo estimulam o desenvolvimento de bactérias e algas na água (que dão aquele aspecto esverdeado), reduzindo a concentração de oxigênio e, por consequência, levando à mortandade de peixes e a riscos para o consumo humano.

Confinamento de rebanho, aumento de riscos

Por isso, a legislação exige que a atividade passe por licenciamento ambiental, e cada estado tem suas próprias regras. “A grande questão é o confinamento cada vez maior do rebanho, que aumenta muito a concentração dos dejetos dos animais, e isso eleva os riscos, além do fato de termos aqui na região granjas pequenas e, muitas vezes, em relevos íngremes”, explica o agrônomo Evandro Carlos Barros, supervisor de capacitações da Embrapa Suínos e Aves, localizada na cidade de Concórdia, em Santa Catarina, estado que lidera o ranking do setor no país.

Ele explica que o licenciamento prevê que todo produtor deve fazer o manejo adequado dos dejetos, e existem alguns caminhos para isso. O mais comum é implantar na propriedade uma lagoa impermeável de estabilização, onde os dejetos permanecem por 120 dias até que possam ser usados como fertilizante orgânico (líquido) em produções agrícolas do próprio produtor, em doses adequadas.

Outra opção é fazer a compostagem dos dejetos em barracões, transformando-os em fertilizante orgânico sólido. Que, inclusive, pode ser comercializado para a indústria de adubo, além de floriculturas e viveiristas. “O ideal, pensando no meio ambiente, seria instalar biodigestores na propriedade, para transformar o metano dos dejetos em biogás para aquecimento térmico e geração de energia. Mas a tecnologia ainda é cara e nem sempre compensa ao produtor”, conta Barros. Segundo ele, estimativas feitas em Santa Catarina mostram que apenas 5% dos produtores de suínos têm biodigestores, embora esse percentual inclua as maiores granjas.

Criação de porcos e o efeito estufa

O biodigestor também é relevante quando o assunto são as emissões de gases de efeito estufa gerados pela suinocultura. Os dejetos dos porcos produzem metano, gás considerado vilão do aquecimento global. Quando inseridos em um biodigestor, o metano é reduzido a gás carbônico, bem menos agressivo, ainda que preocupante em grandes quantidades.

Na lista de prejuízos ambientais da suinocultura ainda podemos citar o odor forte que as comunidades vizinhas às granjas sentem – que pode ser tóxico por causa da concentração de amônia – e a questão do confinamento dos rebanhos, que expõe a humanidade a mais riscos de epidemias e pandemias.

“Apesar de termos hoje uma biosseguridade muito grande, maior do que a da China e de outros países, o confinamento é um agravante no surgimento de algumas doenças que vêm de mutações de vírus e bactérias”, diz o agrônomo.

Carne suína, prato indigesto e cruel

Confinamento intensivo e bem-estar animal são duas coisas bastante conflitantes. Embora a suinocultura nacional já sofra alguma pressão do mercado europeu para oferecer condições melhores de alojamento dos animais, a regra tem sido a do maior lucro. E isso implica aumentar o maior número de animais por m². “Nos pequenos produtores é mais fácil conseguir melhores condições de bem-estar animal e isso é até uma tendência, mas ainda muito incipiente”, afirma Barros.

De modo geral, a crueldade é marca registrada, especialmente em relação às porcas reprodutoras. “Elas ficam isoladas em celas de gestação que têm quase o mesmo tamanho do animal, e não conseguem ter nenhum tipo de comportamento natural da espécie. Isso gera enorme estresse e muitas feridas nas barras de metal, além de infecção urinária que acaba levando à má formação dos filhotes e, com isso, ao descarte dessas fêmeas”, conta Sandra Lopes, diretora executiva da ONG Mercy for Animals.

Os animais simplesmente não resistem a tanto sofrimento

Segundo ela, enquanto a legislação brasileira aceita essas celas minúsculas, na União Europeia e também em 10 estados norte-americanos elas já foram banidas. Por aqui, algumas grandes redes da indústria estão implementando políticas de proibição da prática nos próximos anos. É o caso de empresas como Mc Donald’s, Burguer King, Nestlé e Subway.

“Na natureza, uma porca pode viver mais de 20 anos, mas, na indústria, a vida média fica entre três e cinco anos. Os animais simplesmente não resistem a tanto sofrimento”, avalia.

Sandra lembra que no Brasil, na maioria dos casos, os animais são transportados vivos para os frigoríficos (ou matadouros), onde ocorre o abate. “E não existe uma regulamentação para o transporte rodoviário desses animais. E nem um protocolo da polícia rodoviária para os casos de acidentes com cargas de animais, o que é terrível”, diz.

Com tudo isso, consumir carne suína pressupõe, de alguma forma, patrocinar essa crueldade e todos esses impactos. Será que vale a pena? ▲