Chega de Desperdiçar Comida

Do campo à mesa, cerca de um terço dos alimentos em todo o mundo é jogado no lixo. No Brasil, algumas iniciativas quebram paradigmas e ensinam que é possível – e necessário - mudar esse cenário. Veja o que você pode fazer
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É difícil compreender o tamanho do desperdício de comida no mundo, estimado em 1,6 bilhão de toneladas por ano. Isso equivale a um terço de tudo que é produzido pela humanidade – e entre frutas e hortaliças, a perda é ainda maior, de 45%. Os dados são da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que calcula em mais de 820 milhões o número de pessoas vivendo em estado de insegurança alimentar no planeta (ou seja, um em cada nove indivíduos).

Só para ter uma noção desse desperdício, esse volume daria para encher de alimentos 11.428.571 aviões Boeing 747-8F. Se colocássemos esses aviões enfileirados, eles dariam 20,9 voltas ao redor da Terra. E o pior é saber que metade desse volume já mataria a fome real do mundo.

E desperdiçar comida também significa desperdício de recursos (água, terra, trabalho humano etc.) e gera impacto ambiental. Segundo a FAO, essas perdas de alimentos representam de 8% a 10% das emissões mundiais de gases de efeito estufa geradas pela atividade humana. 

Ainda nessa conta, temos os custos do desperdício de comida aos cofres públicos. Somente em São Paulo, por exemplo, a prefeitura gastou quase R$ 10,3 bilhões em 2018 para gerenciar a coleta das 20 mil toneladas diárias de lixo (cerca de metade, resíduos orgânicos).

Números do desperdício de alimentos no mundo, comida poderia alimentar o mundo

Inspiração contra o desperdício de comida

Combater o problema passa por entender seus mecanismos. Especialistas indicam que as perdas ocorrem em diferentes etapas entre o campo e a mesa. Na Europa, o desperdício está mais perto do prato do consumidor, enquanto que em países como o Brasil, grande produtor agrícola, ele concentra mais próximo da terra e também na distribuição – embora seja igualmente importante considerar o desperdício que acontece na preparação das refeições (cascas e talos que poderiam ser aproveitados, por exemplo), na comida pronta (à venda) que ninguém consumiu e nos restos deixados no prato de cada um de nós.

Lá fora, existem diversas iniciativas para reduzir o desperdício em restaurantes, padarias, cafés e hotéis, por exemplo, com a doação das sobras de alimentos para entidades de assistência social e até pessoas físicas. Mais recentemente, essas ações ganharam impulso extra com aplicativos para celular, como o Too Good To Go, que já reúne uma comunidade com mais de 43 mil estabelecimentos na Europa.

Desperdício de comida na mesa do brasileiro

O que o Brasil tem feito

Cada brasileiro desperdiça, em média, 41,6 kg de alimentos por ano. Ao mesmo tempo, segundo o IBGE, há 15,3 bilhões de brasileiros em situação de pobreza extrema, ou seja, em miséria e com fome. Por aqui, o caminho é longo, mas já temos pioneirismos que são inspiração.

Um deles é a plataforma Comida Invisível, que conecta quem precisa receber comida com empresas que querem destinar seus excessos, com segurança e praticidade. Os estabelecimentos cadastram seus alimentos no site ou no aplicativo e os interessados (pessoas físicas e terceiro setor) fazem a busca por geolocalização. Então, depois do “match”, eles combinam entre si como será a retirada da doação.

Números do desperdício de comida na mesa do brasileiro

“O grande trabalho é de conscientização, porque muita gente ainda acredita que é proibido doar alimentos no Brasil”, diz Daniela Leite, idealizadora da iniciativa e advogada de formação. Ela conta que há anos tramitam no Congresso Nacional 30 projetos de lei que tratam de responsabilidade na doação de alimentos, mas nenhum foi aprovado.

“Isso não é motivo para não combatermos o desperdício. A grande questão da responsabilidade civil do doador é subjetiva, quando ele intencionalmente coloca algo na comida para prejudicar alguém. Portanto, é preciso sair do medo. Se eu cuidei do preparo de um alimento observando a legislação sanitária para vender, por que não confio nisso para doar?”, questiona.

Seis caminhões de lixo de alimentos adequados ao consumo é perdido ou desperdiçado a cada segundo

De acordo com o relatório Cidades e Economia Circular dos Alimentos (2019), da Ellen MacArthur Foundation.

É preciso quebrar o mito da doação

Segundo Daniela, explicar aos donos de restaurantes, bufês, supermercados e outros que dá para doar com segurança é um passo importante para ampliar o combate ao desperdício. “É preciso quebrar esse mito. Quando as empresas entendem que podem fazer isso, elas sentem conforto e, em seguida, vem a vontade de doar”, conta. 

Para ajudar nesse ponto, a plataforma oferece um contrato que é assinado entre as partes virtualmente, no qual o doador garante a qualidade do alimento e quem o recebe garante que vai cuidar dele seguindo a Política de Boas Práticas de Manipulação e Transporte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O trabalho de formiguinha tem dado certo. Uma oferta feita no site dura, em média, apenas cinco minutos até que apareça quem queira retirar o alimento. O site conta com mais de 1500 cadastros ativos e já possibilitou a doação de mais de 10 toneladas de alimentos. 

Números do desperdício de alimentos no mundo, comida que vai para o lixo

Por uma estética mais sustentável

Outra iniciativa interessante é a Fruta Imperfeita, uma empresa social de São Paulo criada a partir do espanto com o desperdício de alimentos. “Numa visita ao sítio de um amigo, eu e meu marido nos deparamos com um monte de milho orgânico que ele jogar fora simplesmente porque não cabia nas bandejas usadas para vender o produto em supermercados”, conta Nathalia Inada, cofundadora. 

A partir daquele episódio, o casal começou a estudar o assunto e percebeu que esse tipo de desperdício no campo era bem comum. “Foi quando passamos a oferecer aos produtores um valor justo pelos produtos imperfeitos. No começo, nos chamavam de loucos, diziam que ninguém ia querer comprar. Meses depois, insistindo nas conversas, eles passaram a nos ajudar, indicando colegas que também queriam vender seus imperfeitos”, conta Nathalia. 

Foi assim que eles criaram um esquema de assinatura de cestas de frutas e legumes que quebram o padrão de beleza vegetal imposto pelo mercado e são entregues na casa dos clientes (bem aos moldes da cooperativa de consumo portuguesa Fruta Feia, cujo slogan é “Gente bonita come fruta feia”). 

Vamos derrubar o preconceito com o feio

Pouco tempo depois, eles lançaram um site de e-commerce que já desvia do lixo cerca de 7 toneladas de alimentos toda semana, vindos de mais de 400 pequenos produtores até a mesa de 1200 clientes. “Os produtos são mais baratos do que os nossos concorrentes de delivery de cestas. Mas o preço não é o principal atrativo. Fizemos uma pesquisa e descobrimos que as pessoas vêm mais pela causa mesmo”, relata a empreendedora.

Segundo Nathalia, o grande trabalho é de conscientização das pessoas. Além de quebrar o velho padrão estético, os itens nas cestas refletem a sazonalidade do campo e, assim, mexem nos hábitos de consumo dos clientes. “Com os imperfeitos, as pessoas acabam consumindo mais produtos da época e experimentando coisas novas, que elas talvez não comprariam espontaneamente”, diz, lembrando que combater o desperdício pode ser algo muito prazeroso para todos.

Como reduzir seu desperdício de comida

  • Vá às compras com uma lista detalhada do que você espera consumir nos próximos dias;
  • Prefira produtos da época, que têm mais qualidade e duram mais;
  • Armazene os alimentos de forma adequada, mantendo a despensa e a geladeira organizadas;
  • Frequente mais a feira e não tenha receio dos produtos imperfeitos, como as cenouras de duas perninhas (elas têm exatamente o mesmo valor nutricional das demais);
  • Apoie iniciativas de combate ao desperdício de alimentos;
  • Aprenda receitas que ensinam a reaproveitar cascas e talos e, assim, reduzem a comida jogada fora;
  • Faça compostagem dos resíduos orgânicos em casa e transforme as sobras em adubo para o seu jardim.