O que você não sabe sobre o MST

As famílias assentadas graças ao movimento produzem alimentos livres de agrotóxicos. E nos ajudam a questionar a nossa relação com a terra. Em tempos de quarentena, ainda têm feito toneladas de doações
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13.04.2020

Referência na produção de alimentos livres de agrotóxicos – e o maior produtor de arroz agroecológico da América Latina –, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) também tem entre seu propósito transformar a nossa relação com a Terra. Honrar o que ela nos oferece como abrigo e alimento. Ao longo de 36 anos de existência, mais de 400 mil famílias já ganharam moradia e a chance de viver do que a natureza nos dá.

Mas essas conquistas ficaram ofuscadas para o público em geral porque as manchetes que vigoram na grande imprensa ligam o movimento à ‘invasão’ de terras e propriedades. O que o MST faz é ocupar latifúndios improdutivos e cumprir o papel social da terra que é garantir moradia, alimentação, trabalho, educação e saúde. Ou seja, vida digna aos trabalhadores e trabalhadoras sem terra.

Trabalhador rural, morador de quilombola

Preconceito de um país escravocata

“Esse preconceito que sofremos desde o início do movimento também tem ligação com a origem escravocrata que faz do Brasil um país tão racista, que naturalize a desigualdade social, escamoteie os privilégios de classe e discrimine pobres e aqueles que lutam por direitos”, relata umas das coordenadoras nacionais do MST, Kelli Mafort.

Nessa trajetória de luta pela reforma agrária popular e igualdade social, mais de 400 mil famílias foram assentadas em 88 mil hectares de terra – e 90 mil famílias ainda aguardam, acampadas debaixo das lonas pretas, para serem assentadas.

A força da coletividade: juntos na luta e nas conquistas

Os trabalhadores nas terras conquistadas se tornaram referência na produção de centenas de toneladas de alimentos livres de agrotóxico. Um exemplo é a produção de arroz no Rio Grande do Sul que, em 2019, produziu 20 mil toneladas do cereal. Esse volume os coloca como os maiores produtores de arroz agroecológico da América Latina.

A criação de um assentamento muda não apenas as vidas das pessoas assentadas, mas de todo o município onde o assentamento foi realizado. É que a atividade traz impactos positivos social e economicamente. As famílias assentadas ganham condições de produzir, construir suas casas e gerar renda. A produção garante o abastecimento de alimentos para si e para os moradores das pequenas cidades. 

É o caso do Município de Alto Alegre dos Parecis, no estado de Rondônia, com quase 18 mil habitantes. Segundo a Associação Comercial local, 25% de todo o dinheiro que circula anualmente na cidade vem do Assentamento Che Guevara, onde vivem cerca de 380 famílias assentadas.

Vanusa Conceição da Silva Santos está assentada no Che Guevara desde 2002. Ela diz ter tido sorte porque ficou acampada por apenas um ano. Logo, ela e o marido recém casados foram assentados em 14 hectares de terra. “Você consegue imaginar a nossa alegria em poder cultivar essa terra?”, diz.

Ela, o marido e os três filhos produzem mais de 25 espécies de alimentos. O excedente é vendido na feira e entregue para os programas do governo federal criados para a compra de alimentos de pequenos agricultores. 

“Aqui, não produzimos em grande escala, mas de forma diversificada. Suficiente para nos garantir vida saudável e renda. Não usamos veneno. Sabemos o que nós e nossos filhos estamos comendo”, afirma.

ramos de feijão em processo de secagem
Lavoura de feijão e ramos de feijão em processo de secagem
Depois da colheita do feijão, é hora
de colocá-lo para secar. Depois de secos, os ramos de feijão ficam mais fáceis de serem debulhados

MST e o cuidado com o meio ambiente

Uma das críticas do MST ao agronegócio é justamente a forma como se têm explorado a terra e a vida. “O atual modelo pensado para o campo só visa o lucro das transnacionais. Destrói a natureza, expropria as comunidades camponesas, quilombolas e indígenas,” alerta Kelli Mafort.

Mas é hora de repensar a nossa natureza e a forma como olhamos para a Terra. “A luta do MST e da sociedade brasileira deve estar pautada na relação que deseja ter com a terra. É preciso clareza das contradições do modelo de agronegócio e de mineração vigentes que afeta a vida como um todo, saindo do campo e chegando aos grandes centros urbanos”, sinazaliza Kelli. 

Está na hora de promover o debate acerca da falta de acesso a alimentos saudáveis no Brasil. É no que acredita Tatiana Lobão, integrante da Xepa Ativismo, uma rede que luta pela democratização do alimento. Ela diz que o MST é o movimento que une todos os pilares e ciclos da produção de alimentos sem veneno. “Juntos, em diferentes conexões, projetamos a mudança que queremos ver na natureza, na mesa e na sociedade”, enfatiza.

A produção de arroz e de feijão no Quilombo Ivaporunduva

Cooperação em meio à Covid-19

Mudar a nossa relação com a Terra também significa partilhar do que ela nos oferece com generosidade. Enquanto tem se discutido sobre economia em tempos de coronavírus, em meio a empresas que ameaçam demitir funcionários caso as medidas de isolamento não sejam suspensas, o Movimento nos lembra de olhar, de novo, para o coletivo. 

Diante da dificuldade de comunidades carentes comprarem alimentos à medida em que a pandemia avança, o MST tem se organizado para doar arroz, feijão e outros alimentos orgânicos no Rio Grande do Sul e em São Paulo. A proposta é fornecer 20 toneladas, em uma rede de cooperativas que distribuem a doação.

Educação e cultura como expressão da diversidade

É preciso lembrar que a conquista de terra é apenas o primeiro passo para uma reforma agrária. Por isso, as famílias assentadas continuam organizadas, mobilizando suas lutas para conquistar direitos básicos, como acesso à educação e à cultura.

“Queremos a valorização da riqueza e da diversidade dos saberes populares e a democratização do acesso aos espaços de promoção de cultura”, diz Kelli. “Sobretudo, queremos que a sociedade busque uma nova forma de se relacionar entre si e com a natureza. E que esta relação seja menos destrutiva e mais equilibrada”.

Esse novo tempo tem nos chamado a olhar a terra com mais respeito. A honrar o que a natureza já é, e a repensar a nossa relação enquanto sociedade. Afinal, qual futuro queremos colher? ▲