Por Trás do Consumo de Galinhas

O frango é a carne mais ingerida no Brasil e antibióticos, ração com transgênicos, sofrimento animal e degradação do solo também estão nessa conta
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08.04.2020

A carne de frango é a proteína animal mais consumida pelos brasileiros. A média per capita chega a quase 42 kg de frango por ano, ou 800 g por semana. É muita carne. Também, pudera: o país é o segundo maior produtor do mundo, atrás apenas dos EUA. Nas exportações, lideramos o ranking mundial, com mais de 4,2 milhões de toneladas por ano, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Além da carne de frango, o mercado interno é também um grande consumidor de ovos. Em 2019, por causa da alta no preço da carne bovina, o consumo foi recorde: na média, cerca de 230 unidades por habitante.

Se olharmos apenas para o tamanho, já é de se imaginar que essa cadeia industrial produza impactos ao meio ambiente. Mas, quais? Primeiramente, cabe dizer que o setor brasileiro investiu anos em pesquisa e tecnologia para viabilizar a exportação a mercados com leis sanitárias e ambientais mais rígidas. Resultado: impactos ambientais mais controlados, com adequação no manejo, eficiência técnica e fiscalização – boa parte, só por uma questão de necessidade mesmo. 

Este é o caso, por exemplo, da cama dos aviários. Trata-se de substrato orgânico usado no piso dos galpões para absorver a urina e as fezes dos animais – que, na sua degradação natural, libera o gás amônia, altamente tóxico para galinhas e humanos. Atentos a isso, os produtores mantêm os aviários com ventilação constante e fazem a compostagem ou a biodigestão desse material. São normas ambientais para evitar a contaminação do solo e da água.

Frango consome água verde

Falando em água, vamos abordar a pegada hídrica da carne de frango. Esse conceito estima a quantidade de água necessária para a produção de um quilo de carne de frango ao longo de toda a cadeia produtiva, do aviário até a mesa do consumidor. “Essa pegada está entre 4 e 5 mil litros de água por kg de carne e, desse total, entre 70-90% é a chamada água verde, aquela que foi consumida na agricultura para produzir a ração desses animais”, explica o pesquisador e zootecnista, Julio Cesar Palhares, da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos, SP), que é também mestre em Agronomia e doutor em Ciências da Engenharia Ambiental.

Traduzindo, a carne de frango é grande consumidora de água indireta, embora isso passe despercebido pela maioria dos consumidores. Além disso, como a base da ração de frangos é a soja e o milho, uma lista e tanto de impactos socioambientais acaba sendo parte da cadeia de produção de frangos e ovos. 

No Brasil, o cultivo desses grãos é feito quase sempre com sementes transgênicas. Além disso, muito agrotóxico e problemas fundiários que vão desde o desmatamento a conflitos em terras indígenas e invasão de áreas protegidas. Ou seja, além do consumo animal, um cenário ainda mais amplo de degradação ambiental e de desrespeito aos povos está envolvido num prato com filé de frango. 

O perigo dos antibióticos

Ainda é muito comum no Brasil a ideia de que a carne de frango contém hormônios usados para acelerar o crescimento dos animais e encurtar o tempo até o abate. Mas, na verdade, eles são proibidos pelo Ministério da Agricultura desde 2004. “Não existe hormônio, mas sim um conjunto de medicamentos promotores de crescimento artificial que funcionam em conjunto com alterações genéticas e resultam em animais com peito e coxas maiores”, afirma Reginaldo Morikawa, diretor superintendente da Korin, pioneira no Brasil a produzir frangos e ovos livres de antibióticos de uso terapêutico e também como promotores de crescimento.

Segundo ele, até aquelas aves maiores vendidas para a ceia de Natal – com nomes comerciais como chester e fiesta, por exemplo – são apenas frangos com grande seleção genética (para favorecer cortes como o peito), abatidos em idade maior do que a média do frango comum, que é de 42 dias – quando ainda são consideradas um bebê. Livres, as galinhas poderiam viver por até 15 anos. 

“A grande questão não é mais os hormônios, mas sim o uso de antibióticos nos animais. Isso é algo que cientistas do mundo todo já associam ao aparecimento de bactérias resistentes”, alerta Morikawa. Ele explica que antibióticos de uso humano não deveriam ser aplicados em animais de corte. E que o Japão e a Europa já têm iniciativas para proibir o que chama de promiscuidade medicamentosa. 

Doenças mais resistentes

Em tese, ao consumir carne de frango contaminada (e outras também), as pessoas podem acabar ingerindo junto algum micro-organismo resistente. E que vai se instalar no intestino, podendo transmitir esse gene resistente para a sua microbiota. 

Em escala global, junto com o uso excessivo de medicamentos pela população, isso já é considerado pela Organização Mundial da Saúde um dos maiores riscos à saúde humana: quanto maior a resistência bacteriana, mais difícil será combater doenças como pneumonia, por exemplo. Ou seja, o nosso consumo de carne também está diretamente relacionado à ineficiência de antibióticos e a problemas de saúde cujos medicamentos já não surtirão mais efeito.

Para além da carne, ovos

Nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que concentram a maior parte da produção de frango brasileiro, muitos aviários têm alta densidade de animais. E, para a comercialização de ovos, boa parte das galinhas passa a vida confinada em gaiolas minúsculas. E empilhadas e sem qualquer contato com a terra – e sem sequer abrirem as asas.

Peter Sakas, veterinário da Free from Harm, organização baseada em Chicago que resgata e cuida de animais, diz que “é comum ver em galinhas complicações do trato reprodutivo, ovos presos, ovos em decomposição, peritonite de gema de ovo, ruptura de ovos e todos os tipos de problemas”, conta ele. Peter chegou a resgatar uma galinha com cerca de 450 gramas de material de ovo apodrecido em seu útero. 

Pois aqui entramos numa reflexão importante de consumo consciente: queremos mesmo apoiar esse modelo?

Como as nossas escolhas podem ajudar a promover uma indústria que seja mais ativa e transparente nos cuidados com os animais? E mais: como queremos cuidar da nossa própria saúde e da saúde do planeta baseando nossa alimentação ao consumo de carne como se faz ainda hoje?