Comida de Verdade para as Crianças

Partilhar com as crianças uma mesa que valorize a terra, celebre a abundância da natureza e cultive os prazeres ligados às refeições dá a elas a leveza necessária aos bons hábitos alimentares
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Comida de criança. O que deveria ser a base da alimentação infantil? Bem, não precisamos de muito tempo para refletir que nuggets, batata frita, refrigerante e espaguete com molho processado não são a melhor escolha para aqueles que ainda estão formando seu paladar. Mesmo assim, em restaurantes, estes alimentos são frequentes nos menus “especiais” destinados aos clientes que ainda aprendem a lidar com os talheres. 

E, para além dos restaurantes, em muitas casas uma alimentação ultra-processada, com espaço para biscoitos recheados e salgadinhos de pacote, é oferecida aos pequenos com o rótulo de que “é o que criança gosta”, tão alardeada pela publicidade.

Em busca de praticidade, a premissa básica de nosso tempo, muitas famílias trocam a feira e os produtos in natura ou minimamente processados pelos produtos prontos ou que viram comida em três minutos – alimentos cuja lista de ingredientes seriam ininteligível para nossas avós. 

Olhando assim, parece haver um complô para que as pessoas considerem normal o que algumas pesquisas já apontam no Brasil: os alimentos ultraprocessados representam metade da dieta de crianças até dois anos. Não por acaso, segundo o Ministério da Saúde, quase 16% da população com menos de cinco anos está acima do peso. Há algo de errado com a alimentação infantil.

Publicidade x hábitos saudáveis

Não cair nesse sistema que vicia o paladar das crianças e as distanciam de uma alimentação verdadeira é tarefa árdua e diária para mães, pais e cuidadores mais atentos.  Na verdade, é como encarar um complô mesmo. Desde cedo, as crianças são bombardeadas por todos os lados  – na mídia, nos supermercados e até nas escolas – por mensagens publicitárias que relacionam alimentação infantil a refeições que deveriam ser evitados na primeira infância, quando ainda estão formando o paladar e os hábitos alimentares.

“É necessário protegê-las da publicidade abusiva, que recorre a personagens famosos, brindes e outras estratégias para atraí-las. Nossas leis ainda são um pouco genéricas, precisam ser fortalecidas”, avalia Laís Amaral, nutricionista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. Ela se refere ao Código de Defesa do Consumidor e à Resolução 163, de 2014, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que proíbem peças publicitárias dirigidas às crianças.

Se é verdade que elas são mais suscetíveis a apelos midiáticos, bom seria dizer que os pais, então, conseguem conter o ímpeto infantil pelas guloseimas e outras bobagens industrializadas. Afinal, as crianças não vão sozinhas às compras, certo?

O problema é que os pais e cuidadores também são alvo de publicidade constante desde muito cedo – é só pensarmos no leite em fórmulas e papinhas para bebês. Além disso, algumas abordagens confundem até adultos: alimentos com açúcar, gorduras e sódio em excesso ganham ar de saudáveis com o destaque na embalagem para a composição enriquecida com vitaminas e minerais. Puro engano.

“Muitas vezes, os pais não leem o rótulo ou não percebem isso. O alimento vendido como sem açúcar, por exemplo, não é exatamente saudável, uma vez que pode conter adoçantes artificiais que fazem mal à saúde”, comenta a nutricionista do Idec.

No Brasil, os alimentos ultraprocessados representam metade da dieta de crianças até 2 anos. Quase 16% da população com menos de 5 anos está acima do peso. Fonte: Ministério da Saúde

Celebrar os alimentos da terra

Neste cenário, em que os estímulos contrários reinam ao redor, pode parecer cansativo, estressante e até muito pouco prazeroso cuidar do cardápio das crianças. Mas a alimentação infantil não precisa ser assim, em tom de vigilância ou combate.

Dá para buscar alegria e leveza nas escolhas mais adequadas aos pequenos (e a nós também, aliás). Existe um universo inteiro de cores, aromas e sabores disponível quando simplesmente optamos pela máxima da alimentação saudável: desembalar menos e descascar mais.

E isso, por sinal, passa de mãe para filho. Segundo o Ministério da Saúde, crianças amamentadas por mais tempo aceitam mais facilmente novos alimentos. Isso porque se acostumaram à dieta da família através das mudanças de sabor e odor do leite materno. Algo que não ocorre com o leite em fórmulas, sempre igual e desconectado do cardápio familiar.

“A criança faz tudo por imitação. Por isso, os pais precisam dar o exemplo. Se queremos que os filhos comam mais frutas, podemos inseri-los na rotina da família, de forma prazerosa e alegre, e sem rechear os armários de besteiras”, diz a chef de cozinha Anna Elisa de Castro. Ela é fundadora da NOS Escola, que oferece cursos para ajudar quem deseja se alimentar melhor e adotar um estilo de vida mais saudável.

Para ela, quanto mais a criança participa das várias etapas da alimentação da família, melhor. E tudo começa nas compras. “Feira é a coisa mais maravilhosa, porque lá a criança conhece os alimentos como vêm da terra, e elas precisam desse contato, dessa conexão que cria um vínculo com a natureza”, explica Anna, que é também apresentadora do programa de TV Papinhas e Comidinhas, do canal GNT.

Levando as crianças às compras

Já no supermercado, explicar para os pequenos os nomes estranhos dos rótulos de produtos ultraprocessados, segundo Anna, também pode ser parte da rotina familiar para além da alimentação infantil. “Inseri-la nesse processo de escolhas, que é muito diferente da ideia de restrições alimentares, é importante para a criança”, acredita.

No ambiente doméstico, ela diz que os adultos devem convidar as crianças para as atividades na cozinha. “Ninguém precisa ser um grande cozinheiro, porque escolher bem os ingredientes já é meio caminho andado. A criança que ajuda a preparar as refeições aprende a ter responsabilidade, senso de hierarquia, autonomia e segurança (ao lavar frutas ou cortar legumes, por exemplo) e, claro, valoriza mais cada alimento levado à mesa”.

Além disso, a chef lembra que a cozinha é ambiente perfeito para aulas informais de História, Matemática, Geografia, Física e tantos outros saberes que conversam com esse mundo da culinária. Também são um jeito de encantar e despertar a curiosidade das crianças pelas plantas e vegetais.

Para uma alimentação saudável, leveza

No momento das refeições, a leveza também deve se sentar à mesa, junto como respeito às necessidades da criança. “O excesso de controle dos pais é ruim e  cria desarmonia. É muito comum a cobrança pela quantidade e a ideia de que a criança sempre precisa de mais uma colher. Há uma confusão entre ela estar satisfeita e estar cheia”, avalia a nutricionista Karine Durães, que atende gestantes e crianças na primeira infância.

Para ela, é responsabilidade dos pais criar uma rotina alimentar para as crianças que inclua a boa escolha dos alimentos, os horários adequados e um ambiente favorável e tranquilo – sem tablets, por exemplo. 

“A partir disso, a criança cuida da quantidade e os pais aprendem a respeitar quando ela diz não, mais ou menos como ocorre em comunidades indígenas, por exemplo. Por lá, as crianças têm um elo forte com os alimentos da terra, não há muitas regras em torno da comida e cada criança é tratada na sua individualidade”, conta Karine.

Assim, oferecer uma alimentação infantil saudável e variada, em um ambiente harmonioso e sem a ansiedade para que a criança “raspe o prato”, permite que ela explore seu paladar e componha uma dieta de forma mais orgânica e feliz.

Aí, quando a regra geral da família é a comida de verdade, a chef Anna Elisa de Castro diz que as exceções podem ser mais bem toleradas, afinal.

“Não podemos isolar a criança ou proibi-la de comer doces, porque isso só aumentaria a sua curiosidade. Se estiver numa festinha, tudo bem comer alguns brigadeiros. Depois, a criança simplesmente volta à rotina e aos hábitos da família, numa boa, sem estresse e feliz”. ▲