Uma Ativista pelos Alimentos

No segundo perfil da série #MêsdaMulher, a história de Elaine de Azevedo, socióloga que fez da relação com a terra sua maneira de mudar o mundo
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09.03.2020

Elaine de Azevedo sempre teve uma ligação profunda com a terra. Uma de suas lembranças mais fortes da infância é a mesa de casa forrada de pratos feitos com alimentos frescos trazidos de uma fazenda no interior do Paraná, com a família reunida em volta.

Essa relação íntima com a comida a motivou a fazer faculdade de nutrição, mas logo ela sentiu falta de um conteúdo que fizesse sentido com o que cozinhar significava. Então, decidiu ir atrás de outros conhecimentos por conta própria.

Seu primeiro passo foi fazer um curso de medicina antroposófica em São Paulo. Depois, partiu para a cidade mineira Matutu, em busca de uma inspiração do que faria a seguir. Lá, teve a ideia de escrever para clínicas de medicina antroposófica da Europa, e logo foi chamada para fazer um estágio na Alemanha. Como havia acabado de terminar um namoro, sentiu-se livre para abraçar aquela oportunidade desafiadora. Tinha 22 anos na época.

Para a sua surpresa, Elaine não encontrou consultórios para atender os clientes no país europeu. Ao invés disso, ela ficou na cozinha, onde aprendeu a cozinhar e passou a ter um contato próximo com os agricultores familiares. Um mundo novo se abria durante os dois anos em que viveu na Alemanha, Áustria e Suíça.

“O fato de eu estar na Europa, onde a agricultura orgânica e biodinâmica já tinha uma força, e conhecer as fazendas, as pessoas, mudou muito a minha maneira de ver a vida. Ali eu abri a porteira para outra visão da alimentação”, diz.

Novos rumos para Elaine no Brasil

Eliane passou mais um ano na Inglaterra, onde conheceu seu marido e fez um curso de euritmia, pois adorava dançar. Com a bagagem de conhecimentos que trouxe para o Brasil, começou a dar palestras sobre alimentos orgânicos e atender clientes em Curitiba.

Mas Eliane percebeu que eles só estavam interessados em dietas, e aquilo a decepcionou. Por isso, ela mudou a rota profissional mais uma vez: foi trabalhar como educadora de nutricionistas e do público. E decidiu fazer um mestrado em agroecossistemas em Florianópolis, onde foi morar.

Foi depois de estudar a qualidade de vida dos agricultores orgânicos da cidade catarinense Santa Rosa de Lima, que ela concluiu o livro Alimentos Orgânicos: ampliando os conceitos de saúde humana, ambiental e social (editora Senac), que tinha começado a escrever tempos atrás.

A obra era uma soma de pesquisas e de tudo o que Elaine tinha testemunhado na vida rural. Do cuidado do pai, que pertencia a uma família de agricultores mineiros, com os animais e a natureza como um todo, à consciência, integridade e ética dos agricultores orgânicos europeus e brasileiros.

Alimento como um ato político

Mas Elaine de Azevedo quis ir além. Seguiu um conselho para fazer doutorado em sociologia política e outra cortina do seu entendimento se abriu. Ela percebeu que havia interesses políticos definindo o que era um alimento saudável e estudou a construção social e política do conceito desses alimentos.

Enfim, se sentiu pronta para fazer um trabalho completo sobre alimentação. Quis prestar um concurso público, mas se deparou com um problema: tinha três formações em áreas diferentes, algo que as instituições não entendiam anos atrás.

Só que Elaine era uma mulher forte e determinada demais para desistir. Voltou à faculdade para fazer pós-doutorado em saúde pública e, em seguida, foi contratada pela Universidade Federal da Grande Dourados, em Mato Grosso do Sul, como professora dos alunos de medicina e nutrição. Hoje ela dá aulas de sociologia da saúde, sociologia ambiental e sociologia da alimentação na Universidade Federal do Espírito Santo.

Durante essa caminhada de 30 anos e muitas andanças pelo Brasil e o mundo, enfrentou desafios como o de ser mulher na agronomia, uma área ainda muito ocupada por homens. Para ela, muitas fronteiras ainda precisam ser derrubadas na nutrição. Por isso, continua o seu trabalho incansável como educadora alimentar e ambiental.

Elaine vê a grandiosidade da causa alimentar, onde cabe não só a preocupação com a nutrição, mas também com o campo, as florestas, os pescadores, as mulheres agricultoras e muito mais. “É um ativismo ambiental, político, que traz uma consciência de que nós temos que fazer alguma coisa”, diz. Ela está fazendo a sua parte.

A causa alimentar é um ativismo ambiental, político. É preciso fazer algo

O que é ser mulher hoje?

Elaine de Azevedo: É enfrentar sem nenhum medo a condição de ser mulher. Essa é uma mudança que está acontecendo agora. É compreender que ser mulher é uma condição que conquistamos, de ser dignificada, aceita na política, no trabalho, ser mãe e companheira. Mais do que nunca estamos conscientes de que esse é um grande desafio. Ser mulher hoje é não aceitar mais uma cantada, um assobio na rua, um olhar diferente de um motorista de táxi que pode que pode se configurar num assédio. A gente não tinha essa consciência alguns anos atrás. Ser mulher, hoje, é muito mais complexo e mais rico também porque parte de uma atenção plena. É respeitar e buscar outras mulheres, não para uma batalha, mas como aliadas na nossa luta.

O que você espera para o futuro das mulheres?

Elaine de Azevedo: Que possamos ser efetivamente ouvidas e respeitadas, com essa complexidade que é ser mulher. Espero que haja uma compreensão profunda da luta feminista, uma baixa de guarda nessa competição entre homens e mulheres e que ambos possam se olhar com as suas necessidades diferentes. Há muitas demandas que não estão sendo ouvidas, que neste momento estão sendo descartadas e ridicularizadas inclusive pela nossa presidência. Isso parte da pessoa mais poderosa do país até o motorista de táxi. Ainda falta uma compreensão do que a mulher deseja.

O que você gostaria de falar para as mulheres?

Elaine de Azevedo: O que eu falo para as minhas filhas. Faça o que você deseja, não desista do que você gosta de fazer. Foi assim que fui indo na vida. É ainda uma vida cheia de desafios na minha atuação. Mas não tenho dúvidas de que é isso o que a gente precisa fazer. Não desistir e estar junto com outras mulheres e com homens que consigam compreender as nossas necessidades. Estejam juntas e procurem fazer o que tem sentido pra vocês. ▲