Por trás do Consumo de Vacas e Bois

Conhecer os prejuízos dessa cadeia produtiva para nós e para o planeta nos dá razões (e mais consciência) para eliminá-la do nosso prato
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28.02.2020

Há mais cabeças de gado no Brasil do que gente. Pela contagem do IBGE, somos hoje 211,1 milhões de brasileiros dividindo o território com mais de 213,5 milhões de bovinos. E isso, é claro, traz uma série de implicações socioambientais e também para a saúde das pessoas e dos animais.

Culturalmente, carne por aqui é quase sinônimo de boi (como se frango, porco e peixe, por exemplo, fossem de algum reino diferente do animal). De Norte a Sul, o churrasco é dos mais comuns pretextos para encontros entre amigos e parentes. E churrasco bom tem que ter carne… bovina.

A força da pecuária no Brasil tem até nome no Congresso Nacional: bancada ruralista. Ela é responsável por conquistar subsídios para o setor, na forma de isenção de impostos, anistias, créditos e perdões de dívidas.

Entre 2008 e 2017, para se ter uma ideia, o custo da carne bovina aos cofres públicos chegou a R$ 123 bilhões, ou 79% de toda a arrecadação de impostos dessa atividade. Os dados, inéditos, são da recém-lançada pesquisa “Do pasto ao prato”, do Instituto Escolhas, que analisou os benefícios recebidos ao longo de dez anos pelos produtores de gado e também os impactos ambientais dessa cadeia produtiva.

Tanta ajuda por um lado, poucas contrapartidas por outro. “O gado de corte é muito impactante na economia, nas exportações, no PIB brasileiro. Mas, é muito crédito, muito recurso do cidadão brasileiro. Precisamos rever os condicionantes exigidos dos produtores, em termos de impactos ambientais”, analisa Jaqueline Ferreira, gerente de projetos do Escolhas.

E eles não são poucos. Um estudo de 2015 realizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável e pela Agência Alemã para a Cooperação Internacional, revelou um dado alarmante: para cada R$ 1 milhão de receita da pecuária bovina são gerados R$ 22 milhões em impactos ambientais, principalmente com desmatamento, degradação do solo e emissão de gases do efeito estufa.

Perda de florestas e degradação do solo

Sabemos que o desmatamento e a expansão das fronteiras do gado no Brasil caminham juntos. Na Amazônia e no Cerrado, 60% das áreas desmatadas viram pasto. É o jeito mais barato (para os produtores, é claro) de criar gado: em grandes áreas, com baixa densidade (em média, um animal por hectare, segundo a Embrapa) e “sem precisar” investir em tecnologia para aumentar o rebanho sem degradar novas áreas.

Eliminar a carne bovina do prato ajuda a poupar nossas florestas. E faz mais do que isso. Combate a degradação do solo ao reduzir a pressão por mais áreas com monoculturas.

Sim, eliminar a carne bovina do prato ajuda a poupar nossas florestas. E faz mais do que isso. Combate a degradação do solo ao reduzir a pressão por mais áreas com monoculturas de soja (banhadas em agrotóxicos), que servem, em boa parte, à produção de ração animal. Esses gigantescos desertos monocromáticos do grão ignoram que a riqueza da natureza mora na diversidade. E empobrecem a terra, mais e mais, para alimentar rebanhos asiáticos e europeus.

Combate às mudanças climáticas

Há ainda outro impacto da pecuária bovina, que está hoje no centro das discussões sobre como frear o aquecimento global: as emissões de gases de efeito estufa, em especial, dióxido de carbono e metano.

De 1990 a 2017, o setor agropecuário respondeu por 80% das emissões de GEEs do país, puxados em grande parte pela pecuária bovina. Os dados são do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa, um projeto do Observatório do Clima, entidade que reúne quase 50 organizações da sociedade civil.

Por que isso acontece? Basicamente, por causa da fermentação entérica dos bovinos, um processo da digestão que resulta em gás metano na atmosfera (isso mesmo, a flatulência e os arrotos dos animais). Há ainda o manejo dos dejetos, ou seja, fezes, do rebanho, que também gera metano e – como já sabemos – o desmatamento ligado à atividade, que libera CO2 na atmosfera ao queimar florestas para abrir novos pastos.

A nova pesquisa do Instituto Escolhas calculou a pegada de carbono da pecuária bovina no país. Em média, são lançados 78 kg de CO2 equivalente a cada quilo de carne produzida, considerando toda a cadeia produtiva, do pasto até o prato do consumidor. Mas, esse número salta para 183 kg de CO2 por quilo de carne em regiões onde o desmatamento avança mais. É o caso da área conhecida como Matopiba, que envolve partes dos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia.

Tudo isso junto explica a campanha mundial Menos é Mais, do Greenpeace, que convida a população a reduzir pela metade o consumo de carne até 2050, como uma estratégia de conter os avanços do aquecimento global.

Como se ainda faltassem motivos para deixar a carne fora do prato, resta lembrar: nossa pecuária bovina é presença marcante na liderança da lista suja que denuncia trabalho escravo no país, desde 1995, início da série histórica do Radar do Trabalho Escravo, do governo federal.

Saúde no prato

Se a carne bovina faz mal ao meio ambiente, também é de se esperar que afete nossa saúde. Nos últimos anos, diversas pesquisas (estrangeiras, principalmente) resultaram em evidências científicas relacionando o consumo de carne vermelha ao surgimento de doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer, obesidade e diabetes.

Uma pesquisa da Faculdade de Saúde de Harvard, por exemplo, acompanhou mais de 81 mil voluntários durante oito anos. E mostrou que comer 3,5 porções de carne vermelha por semana eleva em 9% o risco de morrer nos oito anos seguintes. Para as pessoas que consomem a carne em produtos embutidos, as chances sobem para 13%.

Outra pesquisa, da Universidade de Oxford, calculou que a redução no consumo de carnes poderia economizar mais de R$ 100 bilhões em gastos com saúde e perda de produtividade no trabalho até 2050.

Além disso, a indústria da pecuária é uma grande fonte de vírus, bactérias e protozoários, que são transmitidos pelos alimentos e causam diversas doenças em seres humanos. Para a Organização Mundial de Saúde, há também o problema da resistência antimicrobiana, considerada pela entidade como “emergência global de saúde”.

“Todas essas informações e notícias a respeito dos impactos da carne na saúde e no planeta estão chegando mais às pessoas. Isso explica o aumento do veganismo e do vegetarianismo no Brasil e no mundo. As pessoas têm hoje dilemas éticos em relação à carne, querem evitar esses impactos. Muitas ainda pensam na saúde e no bem-estar dos animais, não querem ser parte dessa matança”, diz David Airoch, vegano e criador do site Vegazeta.com.br. O portal reúne amplo conteúdo sobre o universo vegano, de lista de documentários temáticos a novos produtos, leis e pesquisas.

Quando uma pessoa para de consumir carne, ela acaba chamando a atenção de outras pessoas à sua volta e vira um multiplicador da ideia.

Para quem está determinado a tirar a carne do prato, vai aqui um alento dos bons: toda ação individual nesse sentido surte efeito, sim. “Quando uma pessoa para de consumir carne, ela acaba chamando a atenção de outras pessoas à sua volta e vira um multiplicador da ideia. Conversando numa boa, dá para compartilhar informações sobre a indústria da carne que podem encorajá-la a querer seguir o mesmo caminho”, diz Airoch. Vamos nessa, juntos? ▲

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