A Verdade sobre os Agrotóxicos

O Brasil é um dos países que mais usa agrotóxicos no mundo, ultrapassando limites seguros e algumas dessas substâncias já foram até banidas na Europa por colocarem em risco a nossa saúde
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14.02.2020

O que você acha desta informação: no Brasil, o limite de resíduo de glifosato (que é o agrotóxico mais largamente usado nas lavouras e que a Organização Mundial da Saúde admite ser potencialmente cancerígeno desde 2015) é duzentas vezes maior do que o limite de resíduo de glifosato aceito pela União Europeia.

Outro dado: o nível de malationa (inseticida) aceito no feijão brasileiro é 400 vezes maior do que o limite imposto para o feijão na União Europeia? 

Mais um: a quantidade de agrotóxicos presente na nossa água potável é até 5 mil vezes superior ao máximo permitido pela União Europeia. 

Esses números indicam um dos primeiros fatores a se saber sobre o uso de agrotóxicos em território nacional. Há um abismo entre o que se infiltra aqui e o que países da Europa julgam necessário, responsável, seguro para si mesmos. Aliás, dos seis agrotóxicos mais vendidos em terras brasileiras, três – acetato, atrazina e paraquate – apesar de produzidos em solo europeu, não podem ser consumidos lá.

As comparações – todas fundamentadas em informes oficiais do governo brasileiro – foram publicadas no Atlas Geográfico do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia, elaborado pela professora Larissa Mies Bombardi, da Faculdade de Geografia da USP. O mapa é resultado do levantamento minucioso da pesquisadora, que fez um pós doutorado na Universidade Federal Fluminense e recebeu financiamento da FAPESP para confrontar as duas realidades (Brasil e União Europeia) durante um segundo pós-doutorado, na Universidade de Strathclyde – Escócia.

Tolerância perigosa

“Autorizamos a ingestão diária de 10 miligramas de glifosato por quilo de peso, enquanto a UE restringe à 0,05 miligrama”, diz Larissa. “Isso significa que, se uma criança brasileira de 20 quilos consumir 100 g de soja por dia ela já terá extrapolado em 20% o que o seu peso corporal seria capaz de tolerar. Mais preocupante é que as crianças estão em desenvolvimento, têm um metabolismo diferente e são muito mais suscetíveis a essa contaminação. Quando as margens de segurança são tão altas, o risco também é”, esclarece a professora, trazendo a questão para bem perto. 

Terreno pantanoso

O segundo fator a se constatar é que temos poucas garantias de segurança – seja do tipo de agrotóxico usado, seja da dose empregada – porque o monitoramento da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é insuficiente. 

O Programa de Avaliação de Resíduos de Agrotóxicos nos Alimentos (PARA), criado em 2001 pela agência, só tem condições e equipamentos para rastrear a toxicidade de 220 princípios ativos – ao todo são 515. “E, necessário destacar, os dois princípios ativos mais usados – glifosato e 2,4-D, ambos classificados como carcinogênicos – não são detectáveis pela tecnologia que a Anvisa dispõe”, alerta Larissa. 

“Além disso, o monitoramento se restringe apenas aos alimentos de origem vegetal. Na lista não entram carnes, queijos, vinhos, alimentos processados, comidas infantis. Esse é um problema grave porque reforça a ilusão de que frutas, legumes e verduras são os itens com mais agrotóxico. Não é verdade. Essa química está presente até na água que bebemos”, acrescenta a pesquisadora.

Resumindo: não é porque não sabemos que o agrotóxico está ali que ele não está. 

Quando a Anvisa divulga que pimentão, morango, alface, pepino, abacaxi, cenoura, laranja, uva, mamão e tomate são os dez alimentos frescos com maior índice de agrotóxicos, não podemos esquecer que uma lista ainda maior de itens não passa nem sequer perto de análise.

“A gente tem que monitorar mais. Aquilo que não é investigado não é visto”, defendeu o agrônomo e professor da Fundação Oswaldo Cruz Luiz Claudio Meirelles, que já trabalhou no setor de toxicologia da Anvisa, em um recente debate na Universidade de São Paulo.

Comparação do uso ou presença de agrotóxicos entre Brasil e União Européia

Impacto dos agrotóxicos para a saúde e o ambiente

Sabe-se que a terra fica empobrecida, que o ar e os cursos de água são contaminados. Sabe-se que abelhas morrem. E sabe-se que muita gente faz vista grossa para todo esse impacto. 

Quanto à saúde humana, o Instituto Nacional do Câncer considera que os principais afetados são os agricultores e trabalhadores das indústrias de agrotóxicos, que sofrem diretamente os efeitos dos agrotóxicos durante a manipulação e aplicação. Mas toda a população está suscetível por meio de consumo de alimentos e água contaminados – principalmente gestantes, crianças e adolescentes devido às alterações metabólicas, imunológicas ou hormonais presentes nesse ciclo de vida.

Entre os sintomas crônicos de intoxicação observam-se dores de cabeça, alergias, dificuldade para dormir, problemas respiratórios graves, distúrbios hormonais, incapacidade de gerar filhos, malformação congênita (de 1994 a 2014, uma pesquisa da Fiocruz notou um aumento nos casos de malformações congênitas nas regiões onde a população tinha maior contato com agrotóxicos) e câncer.

No período de 1999 a 2009, segundo o Sistema Nacional de Informações Tóxico-farmacológicas – Fiocruz, foram 62 mil intoxicações por agrotóxicos notificadas – uma média de 15 por dia ou uma a cada noventa minutos. Neste mesmo período houve 1876 casos de morte por intoxicação por agrotóxicos notificadas. 

“O tema é polêmico, faltam pesquisas, mas a realidade que pesa sobre os ombros dos agricultores mostra que algo grave está acontecendo. Não podemos ficar apenas discutindo a ação das moléculas em nível celular quando o que se vê a olho nu é tão escandaloso”, posiciona-se a geógrafa Larissa Bombardi, defensora de um plano nacional de redução de resíduos de maneira a não expor a população.

Duas mulheres usando máscaras de gás em Israel durante 2ª Guerra Mundial, entre 1939 e 1943
Nell Duncanson e Isabel Plante usando máscaras de gás, Israel, 2ª Guerra Mundial, 1939-1943 / Foto: Museums Victoria, Austrália

Como os agrotóxicos surgiram

O potencial de dano dos agrotóxicos pode ser melhor compreendido quando se conhece sua origem.  As substâncias derivam de armas químicas desenvolvidas na primeira e segunda grandes guerras. Gases venenosos foram criados para matar durante o combate. É o caso do gás mostarda, usado pelo exército alemão, francês e inglês, e que bastava ser inalado para causar queimadura severa na pele, olhos e sistema respiratório. Já o agente laranja, herbicida, desfolhava as florestas, aniquilava plantações e tudo ao redor para expor o inimigo.

“Passadas as guerras, o que fazer com essa química derivada de petróleo? Havia fome e a indústria química reciclou os compostos e vendeu a ideia de que a utilização dessas substâncias fertilizaria o solo (os explosivos à base de nitrogênio catapultaram os adubos nitrogenados) e que os inseticidas matariam pragas e melhorariam a agricultura”, explica o biólogo Glenn Makuta, do movimento Slow Food Brasil.

“A revolução verde que começou a ser implantada a partir da década de 1940 no mundo disseminava essa ideia”, complementa o biólogo. Apresentava um pacote tecnológico em que fazia uma venda de sementes ‘casada’ com fertilizantes e ou pesticidas. “Daí vem o modelo de agricultura que acabamos incorporando”.

Mas existe alternativa aos agrotóxicos

 “A agricultura química tem uma lógica de combate, inviabilizando ervas daninhas, pragas e outras manifestações espontâneas da terra. Só que, na contramão, formou plantações cada vez mais resistentes às pragas e com necessidade de  mais agrotóxicos”, descreve Glenn Makuta. “A saída é a agroecologia, que busca aprender a ler o que o solo oferece, baseia-se na sabedoria tradicional da observação, da tentativa e erro, produz variedades agrícolas em vez de monocultura, utiliza adubo verde e faz controle biológico de pragas.

“Da nossa parte, como consumidores, para evitar os agrotóxicos podemos comer mais vegetais e menos carne – porque a grande maioria dos agrotóxicos dos alimentos são aplicados nas monoculturas do milho e da soja. E quem se alimenta deles são justamente os animais, que acabam acumulando as toxinas em seus tecidos”, esclarece Glenn.

Higienizar os alimentos é importante para remover alguns microorganismos e remover resíduos superficiais. Mas, na verdade, os pesticidas impregnam a casca e a polpa da planta.

Dar preferência aos produtos orgânicos, sazonais, frequentar feiras de pequenos produtores mais próximos, conhecer o produtor quando possível também são comportamentos desejáveis. E que, aos poucos, podem levar você a ter vontade para engajar-se em um movimento que cobre medidas que realmente nos protejam da exposição. Como é o caso da plataforma Chega de Agrotóxicos.  

O que mais você pode fazer…

Vale ainda reduzir o consumo dos produtos ultraprocessados. O exagero no consumo desses itens não só tirou nossa autonomia alimentar e nos deixa nas mãos das indústrias transnacionais do agronegócio, como está levando a um empobrecimento nutricional. “As pessoas estão ganhando peso sem estarem recebendo nutrientes”, compara Larissa Bombardi. “Quando eu me reúno com minha família e coloco a alimentação como algo central, quando nos dividimos para comprar os alimentos mais saudáveis e para cozinhá-los em casa – ou seja, quando a tarefa deixa de ser exclusividade da mulher e passa a ser responsabilidade de todos – estou fazendo mais do que ficar longe dos agrotóxicos”, defende.

“Essa é a verdadeira revolução: reconquistar a soberania alimentar”. 

Veja a lista dos agrotóxicos mais vendidos no Brasil

Desde 2009, o Brasil tornou-se o maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Cerca de 20% de tudo que é produzido chega aqui, apesar de o país não produzir 20% de todo alimento da Terra. A sobrecarga não parece afetar outros países na mesma proporção. Ao contrário. E chama a atenção que os fabricantes destes agrotóxicos têm sede em Berlim, Londres, Paris, onde grande parte dos princípios ativos foi banida. Dos seis agrotóxicos mais vendidos em território nacional abaixo, três, por exemplo, são proibidos pela União Europeia.

Lista dos seis agrotóxicos mais vendidos no Brasil e suas características