Por que Ler os Rótulos dos Alimentos

Quando aprendemos a ler o que diz uma embalagem, podemos fazer escolhas mais saudáveis para nós e para o planeta
10 minutos de leitura

Nossas escolhas são poderosas, você já sabe. Aquilo que colocamos (ou não) no nosso prato tem impacto na nossa saúde e também no planeta. Então, cada vez mais, ler os rótulos dos alimentos que escolhemos nas prateleiras faz parte de um conjunto de boas escolhas diárias. 

Só que a tarefa pode não ser das mais animadoras para muita gente. Por isso, queremos que você saiba interpretar bem o que diz as embalagens dos produtos que consome. No primeiro texto desta série, compartilhamos selos e informações importantes para você se atentar enquanto compra alimentos. 

Ler rótulos nem sempre é simples

Letrinhas pequenas, nomes estranhos… Segundo o Instituto Akatu, organização não governamental sem fins lucrativos que trabalha pela conscientização e mobilização da sociedade para o consumo consciente, as pessoas estão um pouco menos interessadas em ler os rótulos dos alimentos. Em 2012, 69% dos pesquisados tinham o hábito, enquanto em 2018 esse número caiu para 53%. 

“Isso é preocupante. Principalmente ao falar de alimentos, por exemplo, já que há a possibilidade do aumento de substâncias indesejáveis. E os consumidores não estão motivados a buscar essa informação na hora da compra”, diz Larissa Kuroki, coordenadora de conteúdos e metodologias do Instituto Akatu.

Aliás, são tantas informações que pode parecer difícil entender aquilo que vem avisado em minúsculas letrinhas. Só 35% dos consumidores entendem completamente as implicações nutricionais do que estão consumindo e as potenciais consequências para a sua saúde. É o que diz a pesquisa “Disposição da população para mudança na rotulagem das categorias de alimentos e bebidas não alcoólicas”, feita pelo Ibope em 2018. Por isso, falar sobre esse assunto parece ainda mais urgente e essencial.

Por trás de cada rótulo

No Brasil, é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o órgão que estabelece quais as informações devem constar nos rótulos dos alimentos. Entre eles estão: lista de ingredientes (em ordem decrescente, ou seja, o primeiro ingrediente é o que o alimento tem em maior quantidade) origem, prazo de validade, lote, conteúdo líquido e informações nutricionais.

Há diversos alimentos fora dessa lista obrigatória: bebidas alcoólicas, especiarias, águas minerais naturais e outras águas envasadas. Além de vinagres, sal, café, erva mate, chá e outras ervas sem adição de outros ingredientes – como leite ou açúcar. Produtos fracionados nos pontos de venda a varejo como por exemplo queijos, salame, presunto, além de frutas, vegetais e carnes in natura, refrigerados e congelados, também estão desobrigados de seguir essa rotulação.

E, por aqui, o único selo obrigatório é o de transgênicos. “Com a revisão das normas dos rótulos dos alimentos que está em discussão na Anvisa, a expectativa é termos os selos de rotulagem frontal referentes ao excesso de nutrientes críticos à saúde”, esclarece Laís Amaral, especialista em alimentos do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec).

Repare nos rótulos dos alimentos

Aprenda a ler o que diz cada informação impressa nas embalagens do que você consome e reconheça selos importantes que certificam bons alimentos

Lista de Ingredientes

Lembre-se que os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade. Repare que há ingredientes que representam uma substância, mas com outro nome. Ou seja, em vez de açúcar, você pode encontrar dextrose, frutose, maltodextrina, xarope de glicose, sacarose… E para um produto ser considerado integral, é preciso que este ingrediente apareça em primeiro lugar. E não “farinha de trigo enriquecida com ferro e ácido fólico”: essa é a farinha branca comum. Por isso, mesmo quando um produto se diz integral, não deixe de checar na lista de ingredientes.

Também repare nas substâncias que você deveria evitar: adoçantes artificiais (aspartame, sucralose, sorbitol, isomalt, sacarina, acesulfame, glycerol, hsh, lactitol, maltitol e polidextrose), xarope de milho com frutose (High Fructose Corn Syrup), conservantes BHT e BHA (Hidroxianisol Butilado e hidroxitolueno butilado), benzoato de sódio, glutamato monossódico, nitrato e nitrito de sódio, gordura trans/hidrogenada, bromato de potássio e corantes artificiais. Achou confuso? Basicamente, os melhores alimentos são aqueles em que você reconhece os ingredientes. 

Origem e prazo de validade

Prestar atenção na origem do produto destacada nos rótulos dos alimentos ajuda a saber sua procedência e a pesquisar mais sobre o fabricante. No prazo de validade é preciso conter ao menos o dia e o mês quando o prazo for inferior a três meses. Já quando o tempo de conservação for de mais de três meses, é preciso informar o mês e ano.

Conteúdo Líquido 

Indica a quantidade total de produto contido na embalagem. O valor deve ser expresso em quilo ou litro. É comum notar que algumas empresas reduzam o conteúdo de suas embalagens em relação à versões anteriores, e essa informação vem assinalada aqui.

Lote

É um número de controle da produção. Caso haja algum problema, o produto pode ser recolhido ou analisado graças a essa identificação.

Informação Nutricional Obrigatória 

É a tabela nutricional. Aqui, vale prestar atenção aos níveis de gordura saturada, importante para diversas funções em nosso corpo, mas que em excesso pode fazer mal; em gordura trans, que deveria ser evitada pois não há nenhum nível de consumo recomendado. E o nível de sódio, que idealmente não deveria ultrapassar 2.000mg ao dia em um adulto saudável. Já entre os nutrientes que devem ser priorizados estão fibras, vitaminas e minerais. E, na tabela, em frente a cada ingrediente, existe o percentual dos valores diários recomendados para você se basear.

ALÉRGICOS: CONTÉM…

Graças ao Põe no Rótulo, uma mobilização de mães que não tinham informação sobre ingredientes alergênicos dos industrializados, hoje é obrigatório o destaque da presença ou risco de presença de 17 substâncias nos rótulos dos alimentos.

São eles: trigo (centeio, cevada, aveia e suas estirpes hibridizadas), crustáceos, ovos, peixes, amendoim, soja, leite de todos os mamíferos, amêndoa, avelã, castanha de caju, castanha do Pará, macadâmia, nozes, pecã, pistaches, pinoli, castanhas, além de látex natural, que são os que mais causam reações alérgicas na população mundial.

“Além de nomes técnicos e letrinhas miúdas, havia vários produtos fabricados em um mesmo maquinário que não informavam o risco de poder conter um dado alergênico por contaminação cruzada. Quando tentávamos informações no SAC, as respostas eram insuficientes – quando respondiam. A falta de informação resultava em reações, por vezes muito graves, que poderiam (e deveriam) ser evitadas”, recorda a advogada Cecília Cury, uma das coordenadoras do Põe no Rótulo.

Produto Orgânico Brasil

Pela legislação brasileira, o produto orgânico – in natura ou processado – veio de um sistema orgânico de produção agropecuária ou feito a partir de um processo extrativista sustentável e não prejudicial ao ecossistema local. Para serem vendidos como tal, é preciso a certificação de organismos credenciados ao Ministério da Agricultura.

Transgênico

A presença do triângulo amarelo com o símbolo “T” indica a existência de organismos geneticamente modificados na composição dos produtos. Mas, infelizmente, está em trâmite um projeto de lei que reduz a exigência para a rotulagem de transgênicos (PLC 34/2015). Caso o projeto seja aprovado, o símbolo “T”, exposto nos rótulos, não será mais obrigatório. O Idec mantém uma campanha em apoio à rotulagem dos transgênicos desde 2008. A petição online já conta com mais de 55 mil assinaturas e você pode assinar aqui. 

Selo eureciclo

Foi desenvolvido pela empresa de tecnologia New Hope Ecotech para solucionar dois problemas: a destinação final de embalagens geradas por empresas e a marginalização dos agentes da cadeia de reciclagem. Este selo certifica que as empresas destinam recursos para o desenvolvimento e a operação das cooperativas de reciclagem. No site é possível checar empresas da área da alimentação que já receberam o “sorriso”.

Selo vegano

Se encontrar esse selo, você vai saber que naquele produto não nenhum ingrediente de origem animal. Nem que a empresa não testa produto finalizado em animais, assim como fabricantes fornecedores também não testam os ingredientes em animais. No entanto, a possibilidade de presença não intencional de traços de origem animal nos produtos não é um fator proibitivo para receber o selo, gerenciado pela Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB). Saiba mais sobre os produtos aqui.

Rainforest Aliance

A norma para uso do selo Rainforest Alliance Certified™ foi desenvolvida pela Rede de Agricultura Sustentável. O desejo é definir práticas agrícolas corretas e que causem menos impacto à saúde dos consumidores, além de cuidar do meio ambiente e dos trabalhadores envolvidos na atividade. Mais informações sobre o selo aqui.

Demeter

Identifica, mundialmente, produtos que são resultado da agricultura biodinâmica, método idealizado por Rudolf Steiner, a partir do conceito de antroposofia. (Aqui, leia mais sobre essa agricultura que integra ser humano, animais e plantas para a produção de alimentos). Utilizado desde a década de 1950, o nome faz referência à deusa da colheita e da agricultura na mitologia grega. Saiba mais aqui.

IBD Orgânico

Atende a todas as certificações orgânicas feitas pelo IBD Certificações no mercado interno e é usado em conjunto com o selo de produtos orgânicos do Brasil. Saiba mais: https://www.ibd.com.br/selo-organico-ibd/

Agora que você já conhece os rótulos…

Além de desenvolvermos a consciência do quão importante é ler os rótulos dos alimentos que consumimos, a advogada Cecília Cury, do Põe no Rótulo, destaca a responsabilidade das empresas de colocarem nos mercados embalagens que criem condições para que os consumidores leiam, sem precisar “decifrar”, as informações obrigatórias.

“E esta força é mais bem calibrada quando há a participação do consumidor, seja acompanhando as políticas públicas em consultas e audiências públicas promovidas pela Anvisa… Seja deixando de comprar produtos cujos rótulos não são suficientemente claros.”

Por isso, outro incentivo é que, desde 2018, a lei de diretrizes e bases educacionais exige que a educação alimentar e nutricional seja abordada no Ensino Fundamental e Médio.

“É necessário um processo de educação dos consumidores. Isso fará com que tenham a capacidade de combinar a leitura dos rótulos com a prática de atitudes mais equilibradas que vão além da alimentação”, reforça Larissa Kuroki, do Instituto Akatu.

Fontes: Cartilha Rotulagem Nutricional Obrigatória: Manual de Orientação aos Consumidores, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Universidade de Brasília (UnB), 2008. ▲