Alimentos em Risco de Extinção

Para não desaparecerem do cardápio, cerca de 200 alimentos brasileiros precisam de proteção – uns foram explorados demais e outros merecem recuperar a fama e voltar à mesa antes de serem totalmente esquecidos
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24.01.2020

Pode ser que a pizza nunca deixe de existir. Nem o hot dog. Muito menos o suco de laranja. A indústria da alimentação sempre dará um jeito para que esses itens continuem atraentes ao consumidor. Mas e o suco de umbu, fruto de uma árvore típica do nosso sertão? E a sobrevivência do pinhão, do feijão-guandu, dos sequilhos? Esses itens brasileiros já não têm a mesma garantia de longevidade. Existem diversos alimentos em risco de extinção.

É que assim como os animais selvagens que podem desaparecer da Terra, esses ingredientes e tradições gastronômicas correm sério risco de não serem mais encontrados também.   

Em grande parte, por nossa responsabilidade. “As práticas de monocultura, a mecanização com sementes patenteadas, o uso de agrotóxicos, a contaminação ambiental e a padronização da cultura alimentar, que faz as pessoas de diferentes lugares do mundo comerem sempre a mesma coisa, estão intensificando drasticamente as ameaças a esses produtos”, afirma Lígia Meneguello, coordenadora do movimento Slow Food Brasil, organização com forte atuação sobre a política alimentar, defendendo a biodiversidade, o respeito aos povos originários e às questões da terra.

Cerca de 200 produtos na berlinda

Poluição, mudanças climáticas, extrativismo predatório e desmatamento também são um grande perigo. O pinhão, por exemplo, praticamente foi extinto devido à derrubada das araucárias, visadas pela indústria da madeira (o corte só foi proibido em 1985, quando restava entre 2% e 3% da cobertura original dessas florestas).

Quanto às monoculturas gigantescas, como a da soja, o problema é que elas empobrecem a terra. “De tanto produzir o mesmo alimento, o solo fica tão enfraquecido que não fornece mais a mesma quantidade de nutrientes. E então se utilizam mais fertilizantes, agrotóxicos, que por sua vez impactam os rios. Perde o ambiente e perdemos nós”, acentua Ligia.

“Mais alarmante ainda é que cerca de 60% das calorias que ingerimos provenientes da agricultura estão associadas a apenas três alimentos: milho, trigo e arroz. Ou seja, uma alimentação padronizada e infinitamente mais pobre do que a que poderíamos ter.” 

Industrializados colaboram para a extinção

A excessiva industrialização dos alimentos e a acomodação à mesa que faz nossa dieta girar em torno do mesmo menu só complicam a história e fazem a lista de produtos em situação de vulnerabilidade crescer. 

No mundo já são cerca de 5 mil ingredientes correndo risco; no Brasil, 200 – na maioria ingredientes e tradições gastronômicas das quais você nunca ouviu falar. Por isso são passíveis de desaparecer. Afinal, quem sentiria falta deles?

Entre alimentos em extinção e os que precisam de cuidados para nãocorrerem o risco de desaparecer está o pinhão, semente da Araucária, uma árvore nativa do sul e símbolo da região
O pinhão é semente da Araucária, uma árvore nativa do sul e símbolo da região. Imagem: © Terramar Filmes / Sementes do Amanhã

O que fazer para evitar

“Deixar de comer é um agravante sério para que o alimento seja extinto”, diz Ligia. “Logo, introduzir esses ingredientes no cardápio, perpetuar a cultura alimentar dos nossos territórios e dos nossos avós e recuperar receitas de família é uma medida eficaz para preservá-los”.

E é aí que o movimento Slow Food entra. “Nossa intenção é falar sobre uma iguaria, explicar de onde vem, como é produzida, por quem, identificar problemas que as comunidades produtoras enfrentam e os caminhos para fazer essa comida chegar localmente, regionalmente e, quando há condições pra isso, nacionalmente”, explica a coordenadora do movimento. 

Para defender a perpetuação de elementos e pratos tradicionais, a associação criou a Arca do Gosto, numa referência à arca bíblica. A intenção é valorizar o ingrediente de tal maneira que ele continue sendo relevante para o mercado e para o consumidor, e informar a população sobre esses diversos alimentos em risco de extinção.

“Tudo começa com uma pessoa querendo indicar um alimento que está sentindo falta, que não vê mais, que comia antigamente e não encontra mais. A pessoa preenche um formulário bem simples no site do Slow Food e a partir daí prosseguimos a investigação e fazemos a interface entre a comunidade, restaurantes, cozinheiros”, conta Lígia.

 O umbu vem do umbuzeiro, uma árvore que é símbolo da caatinga. No norte da Bahia, extrativistas estão trabalhando para preservar o fruto e a nossa biodiversidade em meio a diversos alimentos em extinção
O umbu vem do umbuzeiro, uma árvore que é símbolo da caatinga. No norte da Bahia, extrativistas estão trabalhando para preservar o fruto e a nossa biodiversidade. Imagem: © Terramar Filmes / Sementes do Amanhã

O bom da história

Quando se joga os holofotes sobre essas frutas, hortaliças, embutidos, queijos, variedades de vinhos e pratos típicos regionais, eles reagem. O pinhão virou uma iguaria quando chefs renomados como Ana Trajano, de São Paulo, começaram a incluí-lo nas suas receitas. A paçoca de pinhão sobre tainha assada, por exemplo, ganhou o público gourmet. 

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé, na Amazônia, o manejo do pirarucu conseguiu reverter uma situação crítica. Quem conta é Lara Ely, criadora da série Sementes do Amanhã, da TV Futura, que aborda justamente os bons exemplos na relação do modo de vida de comunidades com práticas de produção sustentável de alimentos. “Com uma simples técnica da contagem de indivíduos (peixes) no rio, os pescadores puderam observar que se pescassem em locais controlados retirando apenas 30% do total, a espécie não sofreria dano e seguiria sua reprodução natural”, diz.

“O resultado deu tão certo que desde 1999, o manejo participativo da pesca de pirarucus ajudou a aumentar em aproximadamente 447% o estoque natural da espécie, nas áreas manejadas da Reserva Mamirauá, além do incremento na renda dos pescadores da região”, completa Alan Mendonça Furtado, roteirista da série.

“Outro exemplo de sucesso é o umbu, fruta nativa da caatinga cujas raízes são capazes de armazenar até 3 mil litros de água durante a estação das chuvas, podendo resistir bravamente à seca”, lembra o presidente da Associação Slow Food Brasil, Georges Schyder. O umbuzeiro foi dizimado com a introdução da caprinocultura pelas famílias da região, mas, hoje, a Coopercuc, Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaça, no sertão da Bahia, faz um trabalho de reprodução de mudas e plantio, além de beneficiar o umbu de forma comunitária, produzindo diversos produtos derivados da fruta e ampliando as possibilidades de interesse por ele. 

Preservar a biodiversidade

“Quando se fala em salvar um alimento em risco de extinção, no fundo, se fala em salvar a biodiversidade. Ou seja, a vida”, avisa Schnyder. Na próxima refeição, portanto, perceba se seu prato pode ganhar um sabor diferente. Pesquise a Arca do Gosto e tente encontrar algum dos alimentos da lista nas feiras de produtos naturais. Fale a respeito, busque apoiar comunidades de coletores ou produtores locais. Acima de tudo, experimente. Em vez de suco de laranja, peça o de umbu. ▲