Seu Prato e o Planeta são um só

Para a nutricionista Ale Luglio, a alimentação consciente é a base da saúde e a chave para a mudança planetária
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13.12.2019

Quem você quer ser na próxima década? Pois a hora de pensar sobre isso é agora. E, saiba você, essa reflexão passa, obrigatoriamente, pelos seus hábitos alimentares. Porque não dá mais para separar o que você coloca no prato da situação crítica do planeta, alertou a nutricionista, ativista vegana e professora do curso YAM Veganismo: O Mundo é o Que Você Come, Ale Luglio, durante a palestra “Alimentação Transformadora Respeitando os Biomas Brasileiros”, parte da programação da Feira na Rosenbaum, que vai até 15 de dezembro, na Unibes Cultural, em São Paulo. 

“Precisamos pensar no impacto das nossas escolhas, retirar a venda e olhar a realidade de um jeito diferente, enxergar os nossos hábitos de forma mais ampla, mais holística”, defendeu Ale. 

O planeta adoece junto com a gente

Conhecer a cadeia de produção dos alimentos é, segundo ela, o primeiro passo para tomarmos consciência do impacto gerado pela nossa comida de todos os dias. Por isso, outra medida fundamental é nos perguntar: O que nos impede de cuidar melhor da nossa saúde e, por tabela, da natureza? Uma alimentação transformadora começa a enxergar e a refletir sobre isso.

“Comer não é um ato individual. O planeta não é só seu. Você é o ecossistema”, ressaltou a especialista, que apresentou o conceito de Saúde Planetária (do inglês Planetary Health), campo de estudo que investiga o impacto da saúde humana no meio ambiente. 

Nesse sentido, ela lembrou do óbvio – infelizmente, ainda negado por algumas pessoas: “A cada escolha que nos adoece, o planeta adoece junto”.

Aliás, 11 dos 17 objetivos estabelecidos pela ONU para a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável 2030 estão relacionados à alimentação. 

Passagem urgente do domínio para a cooperação

Acontece que nos desconectamos da natureza de tal maneira que acabamos nos colando no topo de um ilusório “reinado” humano na Terra. Contudo, Ale desconstrói essa ideia e nos chama para o chão, para a interdependência entre todos os seres, para o fato de que sem a natureza não somos nada.

Ale Luglio é apoiadora do Santuário Vale da Rainha, idealizado por Patricia Varela Favano (à direita)

“Quando nos sentimos parte de algo, saímos da posição de dominadores e assumimos uma postura colaborativa”. 

Para despertar a nossa sensibilidade adormecida, a ativista sugere a reaproximação respeitosa com o meio natural. Portanto, mais tempo no parque, no mato, perto dos animais e dos povos da floresta.

“Precisamos voltar para a natureza”, ela propôs. E acrescentou: “Enquanto nos ligamos à tecnologia, será que estamos deixando as coisas mais simples da vida passarem?”.

Alimentação Transformadora e Plant Based: Ter saúde é simples

A nutricionista assegura que não há nada mais simples e acessível do que uma alimentação Plant Based. Diversa. Colorida. Nutritiva. Restauradora da saúde. É por isso que um dos lemas da Medicina do Estilo de Vida (do inglês, Lifestyle Medicine) é “Comer bem para não adoecer”. 

Em vez de nos desgastarmos pensando em carboidratos, gorduras e proteínas, a especialista sugeriu a rota mais fácil e potente para uma alimentação transformadora: “Todos os dias, todas as cores no prato”. Meta das mais viáveis, convenhamos, já que moramos num país privilegiado, berço da diversidade.

No entanto, infelizmente, não aproveitamos as riquezas da nossa terra. Como observou Ale, nos entupimos de laranja enquanto a acerola apodrece; amamos a batata inglesa e desprezamos a mandioca; valorizamos as amêndoas e desconhecemos o baru. E assim por diante.

“A gente tem que comer o que está perto da gente. Ao resgatar alimentos locais, também resgatamos os pequenos produtores”. Não podemos nos esquecer, aliás, que comer é também um ato político, social e ético.

Direito dos animais, seres sencientes

Como lembrou a ativista, é impossível descolarmos o colapso ambiental da agropecuária. O cenário é alarmante. Atualmente, 1/3 de toda a terra arável do planeta é usada para plantar grãos que irão alimentar animais de abate, principalmente gado, aves e porcos – os escolhidos para nos servir, enquanto os pets recebem o nosso amor e a nossa proteção. 

“Hoje existem mais animais de cativeiro do que bichos soltos na natureza”, ela denunciou.

Mas essa realidade só irá mudar se nós mudarmos primeiro, por meio da nossa ação consciente. “Precisamos focar no que está pressionando o bioma e causando a perda da biodiversidade. Isso significa superar o modelo de monocultura e passar a plantar floresta”, defendeu Ale. 

Então, qual a maior ferramenta para mudar o mundo? O seu “não”. Não quero, não compactuo, não aceito, não consumo. “Alinhar o que queremos para o mundo com as nossas atitudes é transformador. Recomendo”, encorajou a ativista.


E, neste domingo, 15/12, a chef Natalia Luglio e a engenheira ambiental Aline Matulja ensinam uma Ceia Circular, 100% plant based e com resíduos compostados, durante a participação de YAM na Feira Rosenbaum, em São Paulo. A entrada é gratuita, basta se inscrever aqui. ▲