Jejuar para se Conhecer

A prática pode influenciar na caminhada espiritual, nos ajudar a entender as emoções e nos conduzir ao autoconhecimento

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14.10.2019

Jejuar é uma tradição antiga, presente em grande parte das religiões, especialmente as monoteístas. Ocorre há cerca de 21 séculos, no Cristianismo e no Judaísmo, e há 14 séculos no islã.

Todos os profetas – Abraão, Jesus, Maomé, entre eles – praticavam como forma de afastar-se de um estado cotidiano para aproximar-se da comunhão com Deus. 

Ao colocar o corpo em evidência, já que a privação física exige grande esforço, e em sintonia com uma intenção, a tese é de que tudo caminharia rumo à elevação. Sai a necessidade de saciar a fome e a sede e entra a importância de dominar as próprias vontades. 

“Embora cada religião cultive esse hábito de um modo diferente, no coração do jejum está o controle das emoções, o equilíbrio. O entendimento de que é melhor esperar sua emoção passar para tomar uma atitude”, esclarece a professora Francirosy Campos Barbosa Ferreira, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP de Ribeirão Preto e especialista em cultura islâmica. 

Jejum como pausa e purificação

O islã é um exemplo importante do significado desta prática.  A abstinência é uma parte importante da religião e ansiosamente aguardada pelos muçulmanos. Durante o Ramadã, período que corresponde ao nono mês do calendário islâmico, os fiéis jejuam todos os dias, do alvorecer ao pôr do Sol.

No mês inteiro, por cerca de 13 horas, eles não podem beber água, ingerir nenhuma espécie de alimento, fazer sexo ou fumar. A quebra do jejum só ocorre às 19h30, quando as pessoas se reúnem com familiares e amigos para comer, celebrar e depois retomar o jejum no dia seguinte.

Nem penitência, nem sacrifício, o jejum é entendido como uma pausa para reflexão e purificação. “Acontece durante o dia, justamente porque é o período em que as pessoas estão mais alertas. E a intenção é reavaliar pensamentos, desejos, o quanto respeita o próximo, o quê ainda há de raiva dentro de si mesmo”, afirma Francirosy. “Há quem defina o Ramadã como uma escola porque ensina o fiel, não apenas a controlar sua fome e sede, mas também a sua ganância, ira, impaciência”. 

Considerado um dos cinco pilares do islã (os outros são a fé em Deus, as orações cinco vezes ao dia, a caridade e a peregrinação a Meca), o jejum culmina em uma cerimônia de doação e caridade.  

“Sentir fome de maneira voluntária pode fazer o fiel criar mais empatia por quem de fato não tem o que comer. Daí estar previsto um momento de doação de dinheiro aos pobres no final do Ramadã”, explica a professora. 

Mas, claro, só jejum não é comunhão com Deus. “De nada adianta deixar de comer e beber e continuar falando mal do vizinho, ser intolerante e impaciente”, continua a especialista, que há 20 anos estuda o islã e se converteu à religião seis anos atrás. 

Um caminho para conhecer a si

A relação entre comida e religião ou falta de comida e espiritualidade é um tema caro à pesquisadora Patrícia Rodrigues de Souza, doutora em Ciência da Religião e autora do livro A Religião vai à Mesa (Ed. Griot). “Assim como a ingestão de um alimento específico, o jejum atinge o indivíduo em aspectos físicos e psicológicos”, ela afirma. 

A relação entre comida e religião ou falta de comida e espiritualidade é um tema caro à pesquisadora Patrícia Rodrigues de Souza, doutora em Ciência da Religião e autora do livro A Religião vai à Mesa (Ed. Griot). “Assim como a ingestão de um alimento específico, o jejum atinge o indivíduo em aspectos físicos e psicológicos”, ela afirma. 

“Tanto o comer como o não comer são gestos carregados de símbolos e significados que constroem o ser humano. Porque tudo o que fazemos com o corpo causa um impacto enorme nas nossas emoções, memórias e sentidos”, assegura a pesquisadora.

“Imagine um executivo workaholic que decide se espiritualizar e utiliza o jejum como recurso físico para marcar essa passagem da sua vida. Toda vez que ele abdicar do alimento vai trazer de volta essa memória de uma experiência interior vivida”, exemplifica. 

Jejuar, neste caso, é reviver.

Desintoxicação e limpeza espiritual

A abstinência também traz consigo uma cota de limpeza espiritual – não apenas dos pecados ou erros cometidos. “O não comer tem a ver com a ideia de não ter matéria dentro de você. De ser mais etéreo”, informa Patrícia.

As religiões orientais, principalmente no Budismo e Hinduísmo, levam isso em conta quando buscam a abstinência como tentativa de sublimar o corpo e ficar mais leve para a meditação. Os iogues, inclusive, entendem que passar um dia da semana à base de líquidos ajuda a silenciar a mente.

Como toda abstinência, o jejum é uma forma de disciplina. E a disciplina pode conduzir ao autoconhecimento.

A intenção é encontrar paz interna

“Só não conheço jejum que esteja isento de uma conexão espiritual. Sempre há uma intenção de ou aprender a utilizar melhor a energia do corpo, ou entrar em um estado alterado de consciência ou encontrar a paz de espírito”, observa Patrícia. “O maior benefício, na minha opinião, é que o jejum ajuda a gente a ir contra o bombardeio de consumo e comida a que somos submetidos diariamente.”

A privação física autoimposta vai contra o exagero e, quando está junto com a espiritualidade, nos faz olhar para nós mesmos. Aí, sim, pode ser um impulso para fortalecer a fé, um reencontro com nosso eu mais humilde e solidário ou um bem-vindo reajuste interno. ▲