Mindful Eating: o Comer com Presença

A ideia desse conceito é que a gente possa contemplar as refeições valorizando o alimento e esse momento meditativo que uma refeição oferece
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Se você tiver cinco minutos para observar uma laranja, descascá-la notando as nuances de sua textura, sentir seu aroma e saborear um a um os gomos suculentos, perfeito. Você já estará praticando o mindful eating, que, em tradução literal, quer dizer comer com consciência. Mas, se você não tiver esse tempo, relaxe. Há outras formas bem simples de melhorar sua relação com a comida.

Por essência, a mensagem principal do mindful eating é: se você está comendo, dedique-se a apenas isso e coma. Em outras palavras: não se distraia com mais nada. 

Na Ayurveda, comer é o que nutre não só o corpo, mas também a alma. E digerir bem cada alimento é uma das bases mais importantes dessa medicina indiana para ter uma vida saudável. Comer com presença, portanto, é uma das práticas que a gente traz para a alimentação em busca de mais equilíbrio e harmonia.

Para quem faz meditação ou ioga, o mindful eating é uma extensão do exercício da atenção plena aplicada à hora das refeições. Manter o foco no aqui e agora, aliás, é um ensinamento tão antigo quanto Buda. 

“Buda dizia: ‘quando andar apenas ande’, ‘quando sentar apenas sente’, ‘quando comer apenas coma’. Pois é desse treino de presença que estamos falando”, resume a nutricionista Luiza Camargo, instrutora de mindfulness e de mindful eating, de São Paulo.

Luiza aprendeu sobre o conceito no livro homônimo da pediatra americana e professora de zen Jan Chozen Bays.

“Jan estava preocupada com o aumento da obesidade e percebeu que muito do desequilíbrio está relacionado com a abundância de alimentos – e distrações – à mesa. Às vezes, a hora do almoço é para checar e-mails, olhar as redes sociais. Não se pensa se é aquela comida que o corpo precisa, e ao mesmo tempo se é uma quantidade suficiente. Por isso a importância em resgatar esse vínculo”, conta Luiza.

Devagar e sem distrações

“Desconectadas  do que comem e do que sentem, as pessoas afastam-se de seus próprios limites”, afirma a nutricionista e pesquisadora da alimentação Neide Rigo, criadora do blog Come-se. 

Em resumo, “o mindful eating é um nome novo para algo fundamental que deveria ser levado em conta, se não em todas, pelo menos na maioria das vezes: comer devagar, sentindo o gosto do alimento”, observa.

Na teoria, o conceito da atenção plena começa um pouco antes. É preciso considerar o que o corpo precisa em vez de apenas apertar o botão da “hora de comer”. “Se você está alinhado com o pedido do seu corpo poderá comer de tudo porque não vai exagerar em nada”, esclarece Luiza.  “Sentiu desejo de um doce apesar de não estar com fome? Peça um pedaço menor, divida com mais gente”, indica. 

Não há alimento proibido. Até porque não nos alimentamos apenas para saciar o físico. Há também a fome da mente (das compensações, do eu mereço), a fome do coração (das memórias). E, com certo equilíbrio, todas podem ser atendidas. 

Faz parte dessa ciência ainda perceber quais são os gatilhos que disparam comportamentos prejudiciais.

“Às vezes, o cansaço faz a pessoa chegar em casa à noite e engolir qualquer coisa que vir pela frente. Para ela, tomar um banho quente antes do jantar talvez ajude a desacelerar e, com isso, é provável que você evite o exagero impulsionado pela exaustão“, orienta Luiza.

Comer consciente em cinco passos

Na próxima vez que estiver à mesa, seja sozinho, em família ou com os amigos, tente seguir essas dicas:

1 /

Respire lenta e profundamente uma, duas ou até três vezes. Nesse sentido, a respiração é uma âncora que traz corpo, mente e emoção para o presente. E acalma. 

2 /

Não tenha pressa de escolher. Aliás, comer bem significa optar pela comida que estimula seu paladar e honra seu corpo. 

3 /

Com a comida no prato, detenha-se um pouco sobre a cor, aroma e crocância dos alimentos. E, então, pergunte-se se é o que deseja ingerir. Trazer a atenção para os sentidos é mais uma forma de não deixar o contato com a comida passar despercebido.

4 /

Mastigue devagar. O cérebro precisa de vinte minutos para receber o estímulo de saciedade. Porque, se você estiver distraído, o cérebro também estará; você vai comer mais e nem se dará conta do prazer que a refeição ofereceu.

5 /

Cheque sua fome antes, durante e depois da refeição. No meio da atividade, pergunte-se se mais duas garfadas serão suficientes para chegar ao nível de satisfação. Então, não espere ficar com a sensação de estômago cheio.

A simplicidade do mindful eating não significa que seja fácil no início. “Essa liberdade de escolha pode gerar ansiedade para quem se acostumou a dietas restritivas e tem medo de se descontrolar frente a um alimento calórico, por exemplo. Por isso, na dúvida, seja gentil consigo mesmo.

Busque âncoras como a respiração profunda ou técnicas de desaceleração como a da contemplação da laranja por cinco minutos”, sugere Luiza. “Não se trata de comer assim para sempre, mas pode ser útil no começo. Quando menos se espera, o mindful eating traz sua autoconfiança de volta e ajuda você a fazer as pazes com os alimentos.” ▲