Da Terra ao Prato: A Origem dos Alimentos

Fazer escolhas conscientes sobre o que comemos ajuda a garantir produtos mais saudáveis e socialmente mais justos

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A escarola chegou de Nazaré Paulista. A berinjela de um sítio em Indaiatuba. A abóbora e a couve vieram de uma cooperativa em Parelheiros. Pergunto sobre os morangos que não encontro e o senhor Antônio explica que o clima não ajudou na colheita. Vejo que é tempo de ameixa, tamanha é a oferta dela entre os produtores.  Nas manhãs de sábados, domingos e terças-feiras, quem chega para fazer a feira no Parque da Água Branca, em São Paulo, encontra mais do que frutas, verduras e hortaliças dispostas em barracas: também sabe um pouco mais sobre a agricultura e a colheita daqueles alimentos orgânicos diretamente de quem os produz. Vê, ao lado de cada barraca, um pequeno informe sobre o produtor e até algumas fotos das plantações.

Se nos dermos conta, tudo o que está no nosso prato tem uma história para além das gôndolas das barracas e supermercados. De fato, quando nos tornamos atentos à origem do que colocamos na mesa, trazemos para perto a oportunidade de fazer escolhas mais saudáveis para nós. Mas não é só isso: também ganhamos consciência de um sistema de plantio que respeita e valoriza, ou não, a terra, a natureza, as estações e, também, as pessoas envolvidas no processo.

Distantes da origem dos alimentos

Se antigamente os alimentos eram trocados entre seus produtores, com a modernidade esse rastreio natural foi se perdendo. Hoje, diante da facilidade no transporte de bens, passamos a ter acesso a frutas e hortaliças – além de todo o tipo de comida – vindas de longe, fora da estação em que normalmente são colhidas no Brasil ou, ainda, que sequer existem por aqui.

A questão é que, para esses produtos in natura resistirem a longas viagens, eles precisam passar pela ação de substâncias químicas e por processos que os mantenham íntegros, mas que interferem em sua qualidade. Outro ponto é que não saber sobre a procedência do que comemos também impacta diretamente na nossa saúde. Desde 2009, somos o país que mais consome agrotóxico no mundo: em 2014, cada habitante ingeriu 7,36 litros de venenos agrícolas.

E alimentos produzidos longe de onde serão vendidos aumentam a distância entre o produtor e o consumidor, rompendo uma cadeia de responsabilidade alimentar e social de mão dupla. Ainda há exploração humana na agricultura e, em 2013, por exemplo, 21% das liberações de trabalho escravo aconteceram nas lavouras, ficando atrás apenas da construção civil.

A flor e o fruto do quiabo vermelho. Diversidade de espécies e curiosidade dos consumidores em conhecer a origem dos alimentos que entram em suas casas é mais presente no mercado de orgânicos.

A mudança está sendo semeada

O brasileiro tem um especial desafio para saber a procedência do que consome, por que por aqui ainda há pouca regulamentação sobre o assunto. Em muitos países da Europa, por exemplo, as leis obrigam que seja informadas, nas gôndolas, a origem e a cadeia de processo de cada alimento. No nosso país, é recente a legislação que exige que alguns alimentos tragam etiquetas para permitirem o rastreio. Essa lei, instituída em 2018, pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde (Anvisa), passou a valer, num primeiro momento, apenas para frutas cítricas, maçã, uva, batata, alface, repolho, tomate e pepino.

Apesar dos desafios, o interesse por um consumo mais responsável e socialmente justo tem alimentado ações independentes do poder público. A campanha De Onde Vem?, criada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), trabalha para conscientizar a população sobre a importância de rastrear as etapas de produção, processo e distribuição do que levamos à mesa. Segundo uma pesquisa do Instituto, apenas 0,06% dos alimentos a granel vendidos nos supermercados trazem alguma informação ao consumidor. Entre os alimentos orgânicos embalados, entretanto, esse percentual sobre para 56,5%. 

Outra iniciativa é o RAMA, um programa de rastreamento e monitoramento de alimentos, que ajuda os supermercados a fazer uma escolha mais consciente sobre seus fornecedores. Estimula, assim, um desenvolvimento sustentável da cadeia de abastecimento. No site do RAMA, é possível fazer uma busca para saber quais supermercados da sua região aderiram ao programa e passaram a fornecer dados sobre a origem de frutas, legumes e verduras. Cada um de nós também pode – e deve – cobrar por ações que tragam esses dados ao consumidor final.

Compre direto do produtor

Enquanto isso, novas formas de comercializar os alimentos estão trazendo em seu DNA a transparência e o contato próximo ao produtor, como parte essencial do processo. O Instituto Chão, na zona Oeste de São Paulo, é um bom exemplo disso: a associação valoriza a economia solidária e cria ações para incentivar  a sustentabilidade econômica, social e ambiental.

Na feira orgânica e mercearia do Chão, tudo o que é vendido é repassado ao consumidor, diretamente pelo preço de compra. Além de ser mais transparente, não há especulação no preço dos produtos, como no mercado tradicional. “Buscamos a construção de uma rede horizontal e participativa de relações comerciais, priorizando pequenos produtores e relações de trabalho mais democráticas. Assim, amplia-se o consumo de produtos mais sustentáveis, promove-se a distribuição de renda e a descentralização do poder”, diz o manifesto do Chão.

Feiras orgânicas de produtores, como a do Parque da Água Branca, também são alternativas que nos colocam mais próximos do alimento e de quem o produziu e também valorizam um comércio local mais justo social e ambientalmente. E essa proposta vem crescendo: a Associação de Agricultura Orgânica promove, além do Parque da Água Branca, feiras em outros dez pontos da cidade. O site Mapa de Feiras Orgânica é uma ferramenta de busca do IDEC que informa quais as feiras mais próximas a você, na tentativa de facilitar esse processo.

E um outro modelo de comércio tem sido uma alternativa para quem quer se alimentar melhor e se importa com a procedência dos alimentos mas não encontra espaço para frequentar feiras. São as chamadas assinaturas de cestas entregues em casa. Muitas delas são comercializadas por próprios produtores, como as da Fazenda Santa Adelaide, referência em agricultura orgânica, com entregas na Grande São Paulo e em algumas cidades do interior. A Raizs, que colhe os alimentos no dia do seu pedido e busca fortalecer a relação entre consumidor e agricultor familiar. Ou a Orgânicos in Box, no Rio de Janeiro, que trabalha com produtores orgânicos certificados e oferece produtos a partir da colheita prevista de cada produtor.

Direto da fonte: a chef de cozinha vegana Natália Luglio valoriza o consumo de vegetais frescos

Uma mudança é possível

Buscar a origem daquilo que comemos talvez não seja mesmo um processo natural, mas pode fazer parte das nossas escolhas e nos move em busca de uma alimentação mais saudável e socialmente mais justa. Segundo o Fórum Econômico Mundial, essa rastreabilidade pode “facilitar a compreensão do ambiente, da economia, da saúde e aspectos sociais e seu impacto nos processos do agronegócio”, e, também, de trazer mais transparência sobre os processos. Se entendermos que cada escolha feita caminha rumo a um mundo mais consciente, essa revolução pode começar, sim, no seu prato. ▲