Veganismo Acessível para Todos

Os irmãos do perfil Vegano Periférico mostram que alimentação sem origem animal pode ser simples e barata

7 minutos de leitura
25.10.2019

Um dos maiores mitos que impedem uma percepção mais real do veganismo é a de que uma alimentação sem origem animal é uma escolha cara e difícil. Mas dois irmãos estão empenhados em popularizar pratos com ausência de crueldade animal e acessível a mais gente.

Os gêmeos Leonardo e Eduardo Santos, de 23 anos, administram a conta no Instagram @VeganoPeriferico, tornando o uso das redes uma genuína influência do bem. Eles criaram o perfil há dois anos, em outubro de 2017, e hoje já somam mais de 259 mil seguidores.

Diferente de outros perfis, que se mantêm no campo das ideias e de frases impactantes, os jovens, que vivem com a mãe no conjunto Habitacional Parque Itajaí, na região do Campo Grande, em Campinas (SP), foram pelo caminho do exemplo prático. Inundaram as redes com pratos triviais, que cabem na mesa – e no bolso – de muitas famílias brasileiras. 

No lugar da carne vai o quê?

Aliás, o conteúdo da página serve como um ótimo argumento visual em resposta ao questionamento mais comum que ronda os recém-chegados, leigos e críticos ao estilo de vida: afinal, se não tem carne, o que comer?

Na produção de conteúdo dos gêmeos, criatividade não falta. Imagens de pratos gourmetizados, com visual de finalização de chef em louças milimetricamente compostas dão lugar a combinações com cara de dia a dia. Seja no prato do almoço ou na refeição do jantar, variando entre arroz, feijão, macarrão, frutas, legumes e verduras, o lema é o mesmo: “Dá para ser pobre, periférico e vegano”.

Representatividade e ativismo

À época do surgimento do Vegano Periférico, as redes sociais já estavam cheias de perfis vegetarianos de ativistas, médicos, nutricionistas e famosos. Mas nenhuma que representasse essa parcela da população que não pode viver de receitas com ingredientes especiais – e ainda considerados inacessíveis, financeira e até geograficamente.

Então, quebrar os paradigmas do que um dia pareceu impossível aos próprios gêmeos foi a motivação para eles criassem o perfil.  Eduardo foi o primeiro a parar de comer carne. “No começo eu nem sabia o que colocar no prato. Depois de um tempo, parecia que já tinha até nascido vegano”, brinca.

Se amo cachorros, amo porcos

O gatilho para Eduardo se tornar vegetariano veio de uma cena forte e comovente, quando ele passou por um caminhão que tombou com porcos, em 2015, no Rodoanel.

Depois disso, a jornada foi semelhante a de tantos outros veganos em fase de transição: uma pesquisa curiosa em busca de vídeos, documentários, entrevistas e conversas com outros veteranos.

“Refleti que se eu não faria mal algum para o meu cão ou gato, por que comeria porcos? Durante as buscas descobri que a indústria do leite e dos ovos também se beneficia do sofrimento dos animais. Não tinha como ficar em cima do muro”, observa. Leonardo aderiu ao estilo de vida dois anos depois do irmão.

Os gêmeos reconhecem os desafios da periferia. “Há a questão da sobrevivência. Mas também há uma imagem um pouco distorcida de que não podemos escolher o que comer. Por isso, tentamos mostrar pelo nosso exemplo que é possível, mesmo em uma região pobre e em uma família desestruturada. Fazemos isso pelo senso de justiça e empatia”, completa Leonardo, que trabalha como auxiliar em uma hamburgueria vegana.

Veganismo como voz para além dos muros

Os irmãos lembram que a missão de compartilhar um veganismo acessível não pode ter muros. “Atingimos um público enorme de jovens bem instruídos e universitários que se interessam cada vez mais pelo tema”, diz Eduardo. 

“É um orgulho ouvir de pessoas a nossa volta que quebramos algumas ideias erradas que elas tinham sobre a causa que, na verdade, ainda precisa ser tão desconstruída em todos os lugares e entre todas classes”, completa o irmão.

Diante da febre da indústria foodtech, que tem criado alimentos tecnológicos, caso dos hambúrgueres vegetais com gosto e textura de carne, eles acreditam que um olhar crítico se faz necessário. “Os preços desse tipo de produto são bem altos, e não há acesso em todas as regiões. Esse contexto pode reforçar a ideia de que viver o veganismo é caro. Temos 90% da população assalariada que jamais vai comprar”, opina Eduardo.

Hoje, além de compartilharem refeições que unem simplicidade e criatividade, Eduardo e Leonardo criam oficinas, palestras e workshops para mostrar um veganismo possível e abundante que ultrapassa o mundo digital. E expandem uma voz que mostra que comida pode – e deve – se tornar cada vez mais democrática e transformadora.

Nossa coroa tem uma amiga que é doméstica na casa de um megaempresário. Essa tia tava aqui em casa esses dias e comentou: ‘lá no meu serviço o pessoal também come assim; com bastante fruta de manhã, eu lavo um monte pra eles, principalmente a esposa do fulano (o empresário)… vocês tão ficando chique hein, comendo igual a eles.’ Isso fez a gente refletir muito.

@veganoperiferico (instagram)

Desmistificando o veganismo

Os gêmeos Eduardo e Leonardo compartilham lições para uma transição realista e consciente

Cozinhar é liberdade. “Saber fazer a própria comida traz liberdade de consumo, ajuda na rotina e na economia com as refeições.”

Convite à criatividade. “Veganismo gastando pouco precisa de criatividade e cuidado para manter ideias possíveis, variadas e também nutritivas.”

Questão de prática. “No começo eu nem sabia o que colocar no prato. Mas depois de um tempo, parecia que nasci vegano”, diz Eduardo.

Busque inspirações. O ativista Eduardo Marinho e os músicos  Criolo e Eduardo Taddeo estão entre as inspirações dos gêmeos: “Gente que mostra que a transformação é possível”.

Abra-se para conversas. “Críticas são inevitáveis quando você defende uma causa. É preciso que haja espaço para o diálogo”.

Siga investigando. “Assista a documentários e entrevistas. Procure informação sempre”. ▲